domingo, 31 de julho de 2016

Adeus mais uma vez

No dia 05 de março de 2006, publiquei um texto na comunidade do orkut da Rádio Cidade chamado ‘Desabafo de um ouvinte’. Aquele domingo marcou o fim da primeira fase da Rádio Cidade. O orkut estava no auge e os ouvintes utilizaram a rede social para expressar os mais diversos sentimentos. O meu texto foi o tópico mais movimentado da comunidade da rádio naquela noite, foram centenas de comentários de ouvintes e funcionários, alguns que eu nem conhecia pessoalmente, mas que, a partir daquele dia, me adicionaram e se tornaram meus amigos. É o caso do Sérgio Bitenka, que naquele dia fez uma das despedidas mais emocionantes da história do rádio brasileiro.
Como ele trabalhava no primeiro horário, nunca havia o encontrado durante as minhas visitas à rádio. Um ano depois, nos tornamos amigos ao ponto de nos encontramos para beber chopp e jogar conversa fora. Foi ele quem me apresentou ao diretor da Escola de Rádio, Ruy Jobim (este fato mudou o rumo da minha vida). Depois que terminei o curso de locução básica na Escola de Rádio, o Sergio me indicou para fazer um teste para vaga de locutor na também extinta Multishow FM. Tudo isso por causa do ‘Desabafo de um ouvinte’. Foi a primeira vez que alguém disse que havia chorado lendo algo escrito por mim.
Hoje também é domingo, dia 31 de julho de 2016, um pouco mais de 10 anos depois, escrevo novamente pelo mesmo motivo.
O rádio sempre esteve presente em meu lar. Minha mãe era ouvinte da 98 FM - É Só Sucesso, não perdia um programa do Heleno Rotay. Meu saudoso pai era fanático pelo Flamengo e não perdia um jogo do Futebol Show da Rádio Globo. Na casa dos meus padrinhos, também só dava Rádio Globo. O Haroldo de Andrade fazia-se presente em todas as manhãs que passei com o tio Aureo e a tia Rosa. 
Cresci na vila onde surgiu o Piu-Piu & Sua Banda, uma das principais bandas do cenário do rock independente do Rio de Janeiro, na década de 1990. O local era frequentado pelos principais músicos da 'Geração Garage'. É claro que o rock seria o meu estilo musical favorito.
Por causa disso, numa tarde de 1996, aos 12 anos de idade, resolvi ligar o rádio-relógio do meu quarto, que até então só servia para não me deixar ir atrasado para o colégio. Fui passeando pelo dial e encontrei a Rádio Cidade. Na época, a Monika Venerabile era a principal locutora da emissora e o programa apresentado por ela, o Cidade do Rock, era o carro chefe da rádio e tocava músicas inimagináveis para os dias de hoje, como ´Tora Tora´ do Raimundos. Como sempre fui politicamente incorreto, a Cidade me conquistou logo de cara. O pós-grunge estava no auge com diversas bandas, muitas delas ficaram no 'one hit wonder', como o Spacehog, Deep Blue Something, Dishwalla, The Nixons, entre outras. Também fazia muito sucesso uma nova geração do britpop com The Verve, Oasis e Blur. O punk rock tinha destaque na programação com Green Day e Offspring. No rock brazuca, era o momento do Raimundos, Planet Hemp e o Rappa. Além de tudo isso, havia espaço para bandas independentes no horário nobre da emissora. A emoção de ouvir os meus amigos do Piu Piu & Sua Banda tocando pela primeira vez no principal programa da rádio foi indescritível.
Comecei a ligar para a rádio pedindo música todos os dias. A voz inconfundível de um garoto chegando à puberdade fez com que o atendente da rádio (acho que o nome dele era Flávio) já me atendesse com 'oi, Renato' logo após o meu 'alô'. Como foi a fase mais rock da rádio em questão de programação musical e de atitude dos locutores no ar, não era normal ter ouvintes de 12 anos de idade, e logo ganhei o título de ouvinte mais jovem da rádio. 
No dia 11 de junho de 1996, enquanto eu assistia na TV Record as imagens da explosão na praça de alimentação de um shopping em Osasco, ouvia na Rádio Cidade a estreia de um programa chamado InterCidade, apresentado pelo locutor Renato Bruno. Quando liguei para pedir uma música, o atendente fez o convite: “todo mundo da rádio quer te conhecer, vem amanhã participar do programa ao vivo no estúdio”.
Lá fui eu acompanhado pela minha mãe e minha irmã ao sétimo andar do famoso prédio da Avenida Brasil, número 500. Que tarde fantástica! Todos os funcionários da rádio me trataram muito bem. Entrei em um estúdio de rádio pela primeira vez e participei do programa ao vivo entrevistando a produtora Viviane Branco. A Vivi produzia o programa SexCidade, que era apresentado pela Adriana Riemer e tinha a participação de uma sexóloga. Eu nem beijava na boca, mas já sabia tudo sobre sexo. O programa ia ao ar de segunda a sexta, às 09h da manhã, outro fato inimaginável nos dias de hoje.
Que me perdoem as minhas ex-namoradas, mas aquela tarde é a lembrança mais marcante que tenho de um dia dos namorados. Chegava do colégio e já ligava o rádio na Cidade. O locutor que fazia o horário do almoço era o Luciano Oliva, hoje na Jovem Pan de São Paulo.
A Rádio Cidade havia se tornado a minha principal companhia, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Em 1999, a emissora passou por uma crise de identidade, deixando o rock de lado, até axé chegou a tocar. Mas em 2000, a parceria com a 89 FM – A Rádio Rock de São Paulo, deu um gás novo para a Rádio Cidade. A formação da Rede Rock de Rádio beneficiou bastante a emissora carioca, que logo de cara foi a rádio oficial do Rock in Rio 3, em janeiro de 2001. 
Foi a partir de 2001, que comecei a sonhar em ser locutor de rádio. Na minha opinião, a equipe de locutores da Rádio Cidade em 2001/2002 foi a melhor do dial FM do Rio nos últimos 20 anos: Serginho Bitenka, Rodolfo Becker, Demmy Morales, Rhoodes Lima, Débora Santos, Edu Fontes e o jovem Ronan Tardin. Nos anos seguintes, aconteceram mudanças apenas no horário noturno e nos fins de semana. Zeca Lima, Casé, Fabiano, Carlos Alberto e Carla Machado também integraram a equipe de locutores da Cidade – A Rádio Rock entre 2003 e 2006.
Eu admirava todos os locutores da equipe 2001/2002, mas o Rhoodes era o meu ídolo na locução. Sempre foi a minha maior referência como locutor de rádio musical. Além da voz potente e da locução precisa, ele é perspicaz e irônico no tom ideal. Os ouvintes tentavam sacaneá-lo no ar, mas o pensamento dele estava sempre um passo a frente, o que deixava os ouvintes sem reação. O Rhoodes ingressou na Cidade em 1997, mas só se tornou o principal locutor da emissora após a saída da Monika Venerabile, em 1999. Quando eu treinava locução na minha rádio imaginária, as trocas de horário sempre eram com o Rhoodes. Ele apresentava o programa Hora dos Perdidos, do qual novamente virei figurinha carimbada. Quando algum ouvinte caía em cima da hora, me ligavam para participar. Acabei me tornando amigo dos três co-apresentadores que passaram pelo programa: Claudio BB (BB Monstro), Camille e Paulinho (Calça-Frouxa, Rabugentos, Coruja)
Quando ingressei como estagiário no Sistema Globo de Rádio, em fevereiro de 2013, o Rhoodes era locutor da Beat98. Fui ao estúdio da Beat, dei um abraço nele e agradeci: “se estou aqui hoje, você é um dos responsáveis por isso”. 
Outro fato marcante da época Cidade – A Rádio Rock (2001 – 2006), foi a interatividade entre ouvintes e funcionários da rádio pelo chat no site da emissora. Era como um Bate-Papo Uol, mas só de ouvintes da rádio. Eu e mais dois ouvintes organizamos o primeiro encontro do Chat Cidade. Foi um sucesso e contou com a participação do Webmaster da rádio, Marcio Norris. O grupo não parava de crescer, e a cada show ou encontro marcado, dezenas de novos frequentadores apareciam. Mas chegou um momento em que o que havia começado como um grupo heterogêneo, estava dividido em vários subgrupos, causando rixas, brigas e muita intriga. Durante algum tempo assumi o papel de líder da ala mais tradicional (leia-se careta), mas depois cansei da confusão e abandonei de vez o “projeto” que idealizei. Mas no fim das contas o saldo foi positivo: jovens com o mesmo gosto musical curtindo shows, paquerando, compartilhando experiências... Vários casais estão juntos até hoje e algumas crianças vieram ao mundo por causa do Chat Cidade. Até hoje tenho pelo menos 5 amigos que conheci nessa época e volta e meia nos encontramos. 
Os boatos do fim da rádio começaram no início de fevereiro de 2006, mas a confirmação só veio na segunda quinzena daquele mês: a Rádio Cidade iria acabar no início do mês seguinte.
Foi uma bomba, tanto para os ouvintes, quanto para o mercado do rádio carioca. Não queria acreditar que perderia a companhia de todos os momentos. A Rádio Cidade foi a trilha sonora de saídas com amigos, confraternizações, paixões, dos momentos bons e também dos ruins. 
A equação é simples: alugar o dial dá muito mais lucro do que manter uma rádio.
Nem havia ingressado profissionalmente no rádio e já sabia que nunca realizaria o sonho de anunciar minhas músicas preferidas ou de trocar de horário com os profissionais que me inspiraram. O dia 05 de março de 2005 foi, sem dúvida, um dos mais tristes da minha juventude. Chorei de soluçar quando o Serginho se despediu dos ouvintes e fez a passagem de horário com o Demmy Morales, às 20h. 
Uma parte importante da minha vida também chegava ao fim.
Não desisti do rádio, só mudei a função que queria exercer nele. Resgatei lembranças dos meus tempos de criança ouvindo Haroldo de Andrade com meus padrinhos ou os jogos do Flamengo com o papai. Queria ser repórter da Rádio Globo, a outra rádio que marcou a minha vida. O desejo era trabalhar no Amarelinho, como o Alberto Brandão, que eu tentava imitar sempre depois que ele entrava no ar nas transmissões esportivas. Meu pai achava um barato. Abandonei a faculdade de Publicidade e Propaganda e investi em cursos na Escola de Rádio. Logo depois, comecei a cursar faculdade de Jornalismo. O Ruy Jobim me disse uma vez: “Se você quiser de verdade, você vai conseguir!” Ele tinha razão. Realizo este sonho todos os dias desde fevereiro de 2013.
Mas o que ninguém poderia imaginar, aconteceu: a Rádio Cidade voltou! 
O retorno foi em 10 de março de 2014. Um dia qualquer, né? Não. Foi o dia em que completei 30 anos de idade. Belo presente! Minha relação com a Rádio Cidade já não era a mesma, pois o sonho de ser locutor da rádio ficou no passado. Mas era ótimo saber que poderia ligar o rádio e escutar minhas músicas preferidas ou ouvir novamente profissionais que foram muito importantes na minha formação como radialista. Tive o privilégio de trabalhar com alguns deles na Rádio Globo ou de conhecer melhor outros. Foi o caso do famoso redator e produtor Julio Psicopata, que hoje em dia é o meu grande amigo Julio Barbosa. Voltei a frequentar a rádio, não mais como ouvinte, e sim como alguém que queria matar saudade de amigos. 
Torci muito pelo sucesso da nova fase da Rádio Cidade, pois era formada por gente do bem, talentosa e que tinha prazer no que fazia. 
Surpreendentemente, no último dia 21, foi feito o anúncio que novamente a rádio acabaria. Praticamente todos os funcionários foram demitidos no mesmo dia. Fiquei muito triste, nem dormi direito naquela noite, pois desta vez não seriam apenas os meus ídolos que ficariam desempregados, eram os meus amigos, pessoas que fazem parte do meu dia a dia, independente do crachá que carregam no pescoço. A Cidade sai do ar novamente daqui a algumas horas. Perdem os profissionais, os ouvintes, os artistas, o rock e o mercado de rádio do Rio de Janeiro. Novamente a equação ‘aluguel do dial = + lucro’ falou mais alto.
A Rádio Cidade manteve a sua tradição de ser pioneira até neste momento, pois é a primeira rádio com dial próprio que acaba pela segunda vez no Rio.
Enquanto redigia este texto, tocou Black Hole Sun, a minha música preferida. Provavelmente, será a última vez que irei ouvi-la em uma rádio do Rio. Uma despedida icônica! 


Obrigado, Cidade!

Força, amigos!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Arrumando as gavetas

Arrumei as gavetas, físicas e emocionais. Carrego no lado esquerdo do peito um arquivo de aço com duas gavetas. Abro a primeira gaveta (de cima) todos os dias quando acordo. Ela funciona como um follow-up, confiro o que está dentro, faço correções e atualizações, mas não tenho o poder de adicionar nada e nem de impedir que algo entre. É preciso tomar de assalto para estar presente neste espaço. Familiares e verdeiros amigos são vitalícios na primeira. É a gaveta que me sustenta no dia a dia. 
Na segunda gaveta (de baixo), guardo o que de relevante esteve na primeira. Porém, tenho mais autonomia na segunda gaveta. Só coloco o que eu quero e na migração posso jogar fora o que não merece ser guardado.
Se a mudança de gaveta for inevitável, a quantidade de coisas que vou arquivar é o parâmetro para saber se a valeu a pena. Além de espaçosa, a segunda gaveta está protegida com naftalina, preservando o conteúdo livre de traças e outras pragas até o fim da vida. 
Nos últimos dias, arquivei lugares, planos, aromas, sabores, expressões, canções, filmes, sorrisos, sentimentos e pequenos detalhes, como ter aprendido a fazer bolinhas com os pares de meia. 
O período de migração nunca é fácil, mas é necessário. O motivo da mudança pode ser a morte, mas na maioria das vezes a migração é causada pela vida e suas decisões.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O destino não dá uma segunda chance

Em agosto de 2014, comprei um Fusca. Mas não é um Fusca normal, comprei um tesouro: 1971, único dono, todo original, íntegro de carroceria e motor, e com nota fiscal de fábrica em perfeito estado. 
Era mais do que eu procurava naquele momento, pois pretendia aproveitar a companhia e incentivo do meu grande amigo Fabio e me tornar também um antigomobilista. Como o carro já tem mais de quarenta anos, precisava restaurar o interior e pintar a carroceria. 
Não passou outra pessoa pela minha cabeça, o profissional ideal para esse serviço era o Chicão, lanterneiro da minha confiança desde 2005. Como sou conhecido pelo extenso histórico de acidentes de trânsito, o Chicão fez serviços em seis dos oito carros que tive até hoje. Nos encontrávamos com frequência. 
Ele me ganhou como cliente após fazer um desafio. Meu segundo carro foi um Fiesta, apelidado de 'Gasparzinho' por um amigo de trabalho. No final de 2005, bati forte com o Gasparzinho na traseira de um Santana. Estava em busca de um lanterneiro para fazer o serviço e vários profissionais falaram que seria necessário trocar o capô. Quando entrei na Auto Mecânica Jofa, localizada na Estrada do Cafundá, na Taquara, fui atendido pelo Chicão, proprietário da oficina. Ele olhou o carro, fez o orçamento e disse que não precisaria trocar o capô. Questionei, mas ele respondeu sem titubear: "Se o carro não ficar bom, você não paga o serviço". O carro ficou igual 0km. Estava ali instituída uma relação de confiança e respeito. 
Passei a indicá-lo para todas as pessoas que conheço. Os que aceitaram a indicação, ficaram impressionados com a perfeição do serviço. 
Voltando ao Fusca, deixei na oficina do Chicão na semana seguinte a compra. Alguns meses antes, a diabetes havia levado metade de uma de suas pernas. Enquanto a prótese não ficava pronta, ele improvisou uma com pedaços de uma muleta e a forma de um sapato. Era algo incrível! 
Ele me contou que os médicos da ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação) ficaram tão encantados com a invenção criada por ele, que adiantaram o processo de confecção da prótese definitiva para que pudesse voltar a levar uma vida normal o mais rápido possível. 
Como eu estava ciente do estado de saúde dele, deixei o Fusca lá dizendo: "Não precisa ter pressa, Chicão. Esse carro será meu hobby e só confio em você para realizar este serviço." Ele levou minha fala ao pé da letra. Estacionou o Fusca em um canto da oficina, desmontou todo e em quase dois anos, só mexeu no assoalho, nas caixas de ar e nos pés de coluna. 

Fusca em agosto de 2014, na entrada da Auto Mecânica Jofa

Nos últimos dois anos, visitei a oficina a cada dois meses e sempre ouvia que o carro ficaria pronto no mês seguinte. Ele priorizava os carros mais novos e como sabia da minha consideração por ele, me enrolava na maior cara de pau, mas nunca consegui sentir raiva dele. Decidi que era mais fácil tirar o Fusca de lá do que acabar me aborrecendo, pois jogaria no lixo 11 anos de confiança e respeito. Acordei hoje determinado a dar o ultimato nesta situação. Pesquisei outra oficina, vi o preço do guincho e fui à Auto Mecânica Jofa depois do trabalho. Chamei o Fabio para ir comigo, pois sabia que ele não me deixaria cair novamente na lábia do senhorzinho de fala mansa. Ao chegarmos na oficina, às 13h, avistamos o Fusca parado, desmontado, bem distante do carro que eu imaginava levar para as exposições. Perguntei pelo Chicão, pronto para informar que retiraria o carro da oficina, mas ele não estava lá. Um funcionário me informou que o Chicão havia falecido na tarde de ontem, em decorrência de um AVC. O seu corpo estava sendo velado naquele momento, pois o enterro estava marcado para às 14h. Fiquei sem palavras, olhei para o Fusca parado, abandonado e vi o meu retrato após receber a triste notícia de forma tão inesperada. A vida quis que a minha visita de hoje fosse realmente o ultimato. 
Descanse em paz, Chicão!

segunda-feira, 7 de março de 2016

O preço do amor

Minha mãe sempre fala: "O Renato só ama de verdade os gatos". Essa frase nunca me atingiu, pelo contrário, pois sentir um amor verdadeiro, sem cobranças, interesses ou prazo de validade, é um privilégio. Conheço muitas pessoas que não tiveram essa experiência. Nunca fui uma pessoa solitária, nunca mesmo. Sempre estive rodeado da família, grandes amigos, namoradas... Porém, só esses pequenos animais conseguiram tirar o melhor do meu lado humano. Se um dia alguém me vir sorrindo em frente a um computador, pode ter certeza que não estou assistindo Porta dos Fundos, será algum vídeo bobo de travessuras de felinos.
Peguei meu primeiro gato, o Frajola, em 1997. Era um lorde: educado e imponente. Respeitado por todos os outros gatos e até por cachorros. Morreu em 2009, vítima de um tumor. Na verdade, 2009 foi um ano tenebroso por causa de grandes perdas: papai, um amigo de infância, um vizinho que era um tio e o meu filho Frajola. Filho, isso mesmo.
Eram cinco aqui em casa até a manhã desta segunda-feira. Cheguei do trabalho há pouco, mas só tinha um. Brooke, a mais distante de mim, herdeira do reinado que o Frajola deixou vago. Tive alguns problemas com uma vizinha grávida nas últimas semanas por causa dos gatos. Não há o que discutir com uma mulher grávida, ela sempre terá a razão. Só me restou uma opção: doar meus filhos. Fui pai, politicamente incorreto ao extremo. Falava com eles coisas capazes de estragar a formação do caráter de qualquer criança. No entanto, acho que concordavam com os meus posicionamentos.
Como era bom assistir telejornais com eles, todos os personagens que apareciam nas reportagens eram alvos de comentários. Como confiava em meus filhos, sabia que eles não espalhariam os meus pensamentos por aí. Eles também nunca questionaram meus comentários enquanto assistíamos corridas juntos. Tenho certeza de que eles acreditavam que realmente entendo de automobilismo. Também eram fãs do Soundgarden, pois nunca reclamaram do som no volume máximo e nem dos meus gritos tentando imitar os agudos do Chris Cornell. Durante os anos que dividiram espaço com a minha bateria, foram os únicos que nunca protestaram enquanto eu tocava. Sempre que me arrumava para encontrar uma nova pretendente, eu avisava: "vocês vão ganhar uma nova madrasta". Eles me respondiam com olhares, miados, lambidas, mordidinhas, arranhões ou fugas. Uma relação de cumplicidade, paciência e confiança, que acredito não ser capaz de ter com nenhuma pessoa. Praticamente, todos os meus gatos foram batizados com nome de pilotos, músicos ou personagens de séries que gosto.
Ontem à noite, quando voltava do trabalho, já sabia qual seria o destino deles na manhã de hoje. No som do carro, tocava o CD " All That You Can't Leave Behind". Foi na introdução da música " When I Look At The World" que a ficha caiu. A noite, as ruas vazias, a música, o vento e a saudade antecipada. 

Me despedi de todos antes de ir trabalhar hoje cedo. Agradeci a Sophia por tomar conta do meu carro na garagem todos os dias. Pedi desculpas ao Matt por todas vezes que o chamei de afrescalhado. Ao Chris, pedi perdão por tê-lo retirado das ruas há alguns meses e não ter cumprido a promessa de cuidar dele para sempre. Para doar a Bia tive que pedir a bênção do meu saudoso pai, pois era a gata preferida dele. Não havia óculos escuros no mundo que pudessem disfarçar meu olhar perdido no trajeto até o trabalho. A casa está assustadoramente mais vazia, a Brooke continua sem entender o que aconteceu e eu sigo pedindo a Deus que eles possam ensinar a seus futuros pais o que é o amor. Perdi o privilégio, agora, só sou mais um.

(Chris Cornell no dia que o tirei das ruas)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Milagre de São Sebastião

Foi no fim de tarde do dia 20 de janeiro de 2015. Estava trabalhando no feriado, o que é normal para um jornalista, na cobertura da procissão de São Sebastião. Tudo calmo no trajeto do Santuário dos Frades Capuchinos, na Tijuca, até a Catedral Metropolitana, no Centro.
Faltavam poucos minutos para o fim do plantão, combinei com a minha chefe que faria a última entrada no ar e fui atrás de uma personagem. Olhei ao redor e escolhi o alvo: uma senhora de cabelo curto que aparentava ter uns 70 anos. Com certeza ela teria algo bacana para contar como um pedido especial ou uma graça alcançada. Mas entre nós haviam alguns degraus. Estava a cerca de 2 metros dela, mas precisaria descer um pouco para ficarmos no mesmo nível, pois ela estava sentada na escadaria da Catedral.
Pulei de uma altura de 30 centímetros pela lateral da escadaria. Quando apoiei o pé direto no chão, me desequilibrei e virei o corpo para o lado esquerdo, fazendo um movimento de torção no joelho, seguido pela queda no chão. Senti a dor mais forte da minha vida. Havia acabado de romper o ligamento cruzado anterior do joelho, ironicamente, uma lesão típica de jogadores de futebol. Nunca tive o menor talento para o esporte que é a paixão dos brasileiros.
Por alguns segundos, meus gritos de dor disputaram com o São Sebastião a atenção dos fiéis. Fui socorrido pela senhora que seria a minha entrevistada. Como estava com o microfone e o crachá da rádio, algumas pessoas correram até o Amarelinho (carro de reportagem da Rádio Globo) para chamar o Nilson, o motorista que estava comigo naquela tarde de peregrinação. Ele me carregou até o carro e fomos direto para o hospital Copa D'Or. Fiquei devendo a última entrada no ar naquele dia.
O ortopedista da emergência nem precisou esperar o resultado dos exames para fazer o diagnóstico. Meu joelho estava "solto". Tomei analgésicos, recebi alta, marquei a consulta com o especialista e fui para casa ainda sentindo muita dor. Ao chegar novamente no Copa D'Or para a consulta, dois dias após o acidente, encontrei no consultório o Dr. Rodrigo Kaz, ex-diretor médico do Botafogo e uma das maiores autoridades em joelho no Brasil. Ufa, estava em boas mãos.
Ele examinou meu joelho e só deu uma opção para resolver o problema: cirurgia. Foi neste momento que começou o milagre. Desde a morte do papai, criei um bloqueio com cirurgias e cicatrizes ao ponto de me sentir mal se alguém começar a falar no assunto perto de mim. O caso mais extremo aconteceu há uns 4 anos numa agência bancária. Perto de mim estava uma jovem muito bonita com um vestido decotado, só que ela tinha uma enorme cicatriz no tórax que provavelmente era decorrente de uma cirurgia cardíaca. Não consegui para de olhar para a cicatriz e fui ficando impaciente, agoniado. Minutos depois joguei a toalha e saí do banco sem pagar as contas.
Como alguém com uma paranoia tão grande poderia se submeter a cirurgia de reconstrução de um ligamento? Adiei por 4 meses tentando levar uma vida normal, mesmo com dor e sem poder fazer o movimento de torção do joelho, que é a função do ligamento que eu não tinha mais. Marquei a cirurgia para o final do mês de maio. No dia anterior a cirurgia, uma funcionária do hospital me ligou e perguntou qual era a minha religião. Putz, pirei. Achei que já estavam preparando a minha extrema-unção.
Tentei me confortar na experiência do Dr. Rodrigo Kaz, e deu certo. Ele me passou a confiança necessária para vencer esse obstáculo. A cirurgia durou cerca de duas horas e foi muito bem sucedida. Começava ali a parte mais difícil: 30 dias de repouso absoluto, utilizando muletas e saindo de casa apenas para fazer fisioterapia. Nove dias após a operação, eu já me sentia apto a dirigir, e assim fui a todas as sessões de fisioterapia. Minha teimosia e impaciência estavam colaborando para que o resultado da cirurgia fosse por água abaixo.
Estava me sentido tão confiante no período final do repouso, que fui a São Paulo dirigindo. Dr. Rodrigo não sabe disso, é claro. Ouvi dele em todas as consultas de revisão: "Você é o paciente que mais me preocupa no momento, pois sua recuperação está surpreendente, melhor do que a de muitos atletas, o que pode te encorajar a passar dos limites". Eu fazia cara de bom rapaz e falava para ele não se preocupar. Voltei a trabalhar logo no início de julho, e em um dos primeiros dias de retorno, atravessei a Linha Amarela correndo para chegar ao local de um acidente. Só lembrei da cirurgia na hora que pulei a mureta central da via, doeu...
Sete meses após a cirurgia, o meu joelho está melhor do que antes do acidente. Após o fim das sessões de fisioterapia, iniciei a musculação para fortalecer o novo ligamento do joelho, que foi retirado da parte posterior da coxa. E o melhor de toda história é que a pequena cicatriz dos seis pontos não me incomoda.
Dr. Rodrigo Kaz foi muito importante, mas acredito que São Sebastião foi o principal responsável por me livrar desse trauma.

Viva, São Sebastião! 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Po..., Scott!

Porra, Scott! Essa foi a primeira frase que exclamei ao ler o título da reportagem sobre a morte do cantor Scott Weiland.
O Soundgarden é a minha banda preferida, a segunda é o Stone Temple Pilots. O STP também ocupa o mesmo lugar na vida do meu melhor amigo. No entanto, a favorita do Thiago é o Pearl Jam. Como não havia discussão sobre a segunda colocada, o Stone Temple Pilots era a banda que a gente mais ouvia na adolescência e início da fase adulta. Era a nossa referência musical quando tentamos montar uma banda. Cheguei a sonhar que a banda fazia um show na Taquara, Zona Oeste do Rio, e eu e Thiago assistíamos a apresentação de cima do palco, atrás da bateria.


Na minha opinião de noventista apegado, o STP foi a banda mais completa da geração grunge. A banda surgiu na Califórnia, um pouco distante da fria Seattle, que era o berço do grunge no início da década de 1990. Mas isso não foi um problema para o quarteto californiano, que embarcou com sucesso na onda liderada pelo Nirvana. Entre 1992 e 2001, a banda lançou 5 discos, experimentando diversas vertentes do rock em suas canções. Os álbuns nº 4, de 1999, e Shangri-la Dee Da, de 2001, são impressionantes. A banda mostra uma versatilidade tão grande nesses dois discos, que parecem coletâneas com diversos grupos. No palco, eles eram imbatíveis. Scott Weiland, Eric Kretz e os irmãos Dean e Robert DeLeo eram precisos no palco, reproduzindo com perfeição as gravações de estúdio. Mas a performance do Scott no palco era o que a mais chamava atenção.
A partir da turnê do segundo disco, Purple, de 1994, o problema de Scott com as drogas (álcool, maconha, cocaína, crack, heroína...) começou a atrapalhar a banda. Internações e prisões fizeram parte da vida dele nos últimos 20 anos.
Em 2003, a banda anunciou o fim das atividades e lançou a coletânea Thank You, que na verdade era um CD/DVD duplo. Além do CD com os maiores sucessos, o comprador levava para casa um DVD com todos os clipes, performances ao vivo e gravações feitas por fãs. A banda ainda não havia tocado por aqui e não existia nenhum registro oficial em vídeo até então. Muitos fãs brasileiros, eu inclusive, só se deram conta que eles eram monstros ao vivo, assistindo o DVD após o fim da banda. Foi uma maneira generosa de dizer "muito obrigado" aos fãs. Nesta época, até batizei de 'Scott' um cão labrador que ganhei de aniversário.
No carnaval de 2004, viajei para Nova Friburgo com alguns músicos da cena independente do Rio. Entre eles, estavam o meu grande amigo Marcelo Pedra (Piu Piu e Sua Banda / Mandril), Leonardo Panço (Soutien Xiita / Jason / Tamborete), Rodrigo Djames (Ant-Discos) / Heron (Uzômi) e Fabio Brasil (Piu Piu e Sua Banda / Jason / Detonautas).
O Fabio Brasil foi meu vizinho durante muito tempo e tocou no Piu Piu e Sua Banda, grupo que foi formado na vila onde cresci. Na época da viagem, o Detonautas estava no auge, terminando as gravações do segundo disco. Fui de carona com o Fabio e como não poderia ser diferente, o assunto foi só música. Na semana anterior ao carnaval, ele havia comprado a coletânea Thank You. O Fabio comentou que ficou impressionado com a performance da banda ao vivo. Quando chegamos a casa onde ficamos hospedados, ele falou novamente sobre o DVD com o resto do pessoal. O impacto que a coletânea Thank You causou no Fabio está presente no terceiro disco do Detonautas, Psicodeliamorsexo&distorção, lançado em 2006.
O DVD também fez muito sucesso na famosa Casa do Xhá, em Guadalupe. A residência do vocalista do ParedeVinil foi o QG do rock independente carioca nos anos de 2004 e 2005. O Stone Temple Pilots virou a segunda banda preferida de muita gente.
Com o fim da banda em 2003, sem shows no Brasil até então, já estava conformado que nunca assistira o STP ao vivo. Porém, eles se reuniram em 2008, e lançaram um disco com músicas inéditas em 2010. Só a notícia do retorno do Soundgarden me deixou mais feliz.
O disco inédito foi o que mais ouvi no ano seguinte. Quando estava chateado, bastava ouvir o CD que o sorriso aparecia fácil. Gosto de todas as músicas e a arte a capa do CD foi papel de parede do meu computador e celular durante muito tempo. O disco me passa uma vibração tão boa, que pensei em tatuar o símbolo da capa no braço. A música Cinnamon tem o poder de melhorar o meu humor até hoje.


Pela primeira vez o Brasil estava nos planos da banda. No dia 11 de dezembro de 2010, eu, Thiago e Ventura (outro grande amigo e guitarrista da tentativa de montar uma banda), ficamos extasiados com uma apresentação impecável no Circo Voador. O show entrou pra seleta lista dos melhores de nossas vidas.
Em novembro de 2011, tive a oportunidade de assistir a banda novamente no saudoso festival SWU. Desta vez, acompanhado por outros grandes amigos: Raphael, Sanmer, Gabriel (baixista na tentativa de montar uma banda de banda) e Vitor Rocha. O show não foi tão bom quanto o do Circo . Scott parecia cansado, sem voz, o que prejudicou os outros integrantes. Eles estavam sem ritmo para um show de apenas 60 minutos. Mas eu não imaginava que esse seria o nosso último encontro.


Em 2013, o Scott foi expulso da banda devido aos problemas com as drogas que sempre atrapalharam a banda. Continuei acompanhando o que ele fazia pelas postagens no facebook. Na semana passada, ele compartilhou uma publicação que me deixou muito animado. Scott disse em uma entrevista que estava cogitando um possível retorno ao STP.
A primeira notícia que li na última sexta-feira, encheu os meus olhos de lágrimas e sepultou de vez a chance de assisti-los juntos novamente. Perdi um cara que me acompanhou durante toda a juventude. Não era um bom exemplo, muito menos um herói. Mas como músico, ele conseguiu acrescentar muito na minha vida com a sua arte.
Scott Weiland era um rock star com todas as qualidade e defeitos que o papel exige. Era uma tragédia anunciada, mas um fã nunca está pronto para recebê-la. De acordo com amigos do músico, ele havia voltado recentemente a abusar de álcool e crack. Por ironia do destino, na sexta-feira, levei ao ar pela Rádio Globo a última reportagem da série “Crack - 30 anos destruindo vidas”.
Desejo que o Scott encontre realmente a paz agora.
Na sexta-feira, Cinnamon me fez chorar.


domingo, 5 de abril de 2015

Quem será o meu algoz?

Ganhei uma linda bicicleta Caloi aro 26 no dia das crianças de 1996. Após duas semanas, um homem passa na porta da vila onde eu morava, e percebe que estou descansando ao lado da minha nova bike. Ele se aproxima, ordena que eu não grite, sobe na minha bicicleta e foge. Eu tinha apenas 12 anos, só me restou gritar pedindo ajuda, depois que ele foi embora. Era uma sexta-feira, por volta das 11h, e ninguém pôde me ajudar. Durante alguns anos fiquei com a impressão que todos os homens com as mesmas características físicas eram o ladrão da minha bicicleta. Entrei em pânico algumas vezes por causa disso.
No ano seguinte, eu e minha irmã estávamos em uma agência dos Correios, quando homens armados entraram procurando uma determinada encomenda. Minha irmã ficou muito nervosa e começou a gritar. Ela correu para a porta, mas um dos homens apontou a arma para cabeça dela e disse que se ela não ficasse quieta, iria atirar. Presenciei a cena em estado de choque. Ela ficou quieta e os bandidos foram embora sem levar a tal encomenda.
No dia 08 de agosto de 2010, estava com um amigo bebendo um chope na Rua do Rio, uma área de bares e restaurantes localizada dentro do Shopping Nova América. Deixamos carteira e celular em cima da mesa, que estava num corredor que dava acesso ao banheiro. Eu não levantei da mesa em nenhum momento, mas quando fui pegar o celular para fazer uma ligação, ele não estava onde eu havia deixado. Alguém passou e furtou o celular na minha presença. O cúmulo do profissionalismo marginal.
Após quatro dias do furto do celular, estava estacionando o carro na porta de uma pizzaria na Freguesia. Quando estou guardando a frente do rádio no porta-luvas, ouço alguém batendo no meu vidro. Era um revólver acompanhado da ordem para destravar as portas. Eram dois rapazes. Um ficou no banco traseiro com o revólver encostado nas minhas costelas e o outro no banco do carona segurando uma granada. Demorei alguns minutos para entender o que realmente estava acontecendo. Era um sequestro relâmpago. Rodamos pela Freguesia durante 35 minutos, até que encontramos um caixa eletrônico numa lan house dentro da comunidade Rio das Pedras. Sacaram R$ 510,00 da minha conta. Também levaram o meu relógio, minha câmera fotográfica digital (me deixaram ficar com o cartão de memória), o celular do trabalho e um estojo de maquiagem da minha namorada na época, que estava no banco traseiro do carro. A dupla fez outras vítimas na região. Até retrato-falado eu fiz na sede da Polícia Civil, mas não sei se adiantou alguma coisa.
Dia 15 de junho de 2011 foi a comemoração do aniversário de uma grande amiga. Após o evento, levei uma amiga em casa, na Pavuna. Na volta, por volta das 02h da manhã, escolhi o caminho pela Avenida Pastor Martin Luther King Jr. (antiga Automóvel Clube). Obras estavam sendo realizadas na via e agentes de trânsito me indicaram para uma rua que dava acesso à comunidade Chapadão, uma das mais violentas da cidade. Não percebi que o desvio estava me levando para o interior da favela e continuei dirigindo com os vidros escuros fechados, farol alto ligado e som um pouco alto. Uma moto com dois jovens passa por mim em alta velocidade, mas continuei seguindo em frente. Alguns metros a frente, sou surpreendido por um paredão humano. Cerca de 10 jovens, fortemente armados, apontavam seus fuzis em minha direção. Só pensei no famoso "microondas". Parei, desci do carro com as mãos para o alto com a certeza de que aqueles seriam os últimos momentos da minha vida. Os adolescentes começaram a questionar o que eu estava fazendo na favela, se eu queria pó e coisas do tipo. Expliquei que peguei o caminho errado por causa das obras na Automóvel Clube. Eles vasculharam o carro, reviraram a mochila e a carteira. Encontraram uma câmera fotográfica semi-profissional e um gravador de bolso da Sony, pois na época eu estagiava na Rádio Metropolitana e carregava sempre os meus equipamentos. O clima começou a ficar tenso, até que eles perceberam duas baquetas e um caderno no banco do carona. Esses objetos me salvaram. Naquele dia eu tive aula de bateria mais cedo, e tudo ainda estava no carro. Então falei para os traficantes que era músico profissional, que tocava na noite, e a câmera e o gravador eram para registrar ensaios e apresentações. Eles acreditaram e me deram uma bronca por ter entrado na comunidade com os vidros fechados, farol ligado e o som alto. Um dos rapazes que estava na moto confidenciou que quase me fuzilou ainda na entrada da comunidade. Como tudo não passou de um mal entendido, eles me explicaram como sair da comunidade em segurança, devagar, com os vidros abertos e o pisca-alerta ligado. O grupo que me abordou, avisou por rádio a outra turma que estava na saída da comunidade: "O playboy do carro prata tá liberado. Deixa ele sair em paz." Fiquei surpreso com a cordialidade dos jovens após o interrogatório. Ainda trêmulo, parei num posto de gasolina em Anchieta. E foi lá que constatei algo ainda mais surpreendente: eles não pegaram absolutamente nada meu, nem o dinheiro da carteira.
Em novembro do mesmo ano, fui a Paulínia (SP) assistir ao festival SWU. Novamente roubaram o celular sem que eu percebesse. Estava no bolso de trás da calça jeans. O pior é que foi justo na hora que saí sozinho para lanchar. Por este motivo, fiquei parte do evento sozinho, sem conseguir encontrar meus amigos. Um pouco antes do último show terminar, encontrei 3 dos 7 amigos que estavam lá.
No carnaval de 2014, fiz pela Rádio Globo a cobertura da Banda de Ipanema. Na multidão, algum punguista (papai adorava esse termo) desabotoou o bolso da minha bermuda cargo e roubou a minha carteira de habilitação e o meu dinheiro. Eu estava com o crachá da rádio, vestindo uma camisa pólo azul com o nome "Rádio Globo" em letras garrafais.
Primeiro de março de 2015, comemoração dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro num mega show na Quinta da Boa Vista. Novamente entrei no meio da multidão, para fazer boas imagens do palco. Quando me afastei para fazer uma entrada ao vivo, coloquei a mão no bolso da bermuda cargo para pegar o Iphone da rádio, mas o celular não estava lá. Fui vítima de um punguista mais uma vez. E como era uma cobertura festiva, também estava usando o crachá e vestindo a camisa pólo azul com o nome "Rádio Globo" em letras garrafais.
Felizmente não sofri agressões físicas durante as ações criminosas das quais fui vítima.
Precisava detalhar todo o meu histórico de vítima da criminalidade para poder prosseguir o raciocínio.
Na Sexta-Feira Santa, me senti como em 1996. Entrei em pânico após assistir à primeira edição do RJ TV. Um menino de 10 anos morto porque segurava um celular. Uma mulher morta em uma galeria que eu costumo utilizar como travessia. O corpo de uma jovem de 17 anos, que malhava na mesma academia que eu frequentei, foi encontrado em um rio. A agência bancária, que fica à 500 metros da minha casa, foi assaltada duas vezes em menos de um mês. Eu não queria sair de casa na sexta-feira. Pedi a proteção divina e segui para a rádio. Mais três casos no fim de semana me deixaram ainda mais deprimido: um homem morre atingido por uma bala perdida em um ponto de ônibus, um homem encontrado morto dentro de um táxi em Parada de Lucas e duas pessoas morrem durante troca de tiros dentro de um coletivo em Niterói.
Assisti ao documentário "Ônibus 174" no início deste ano. Foi uma nova visão para um caso que acompanhei com a ótica adolescente em 12 de junho de 2000. Quantos Sandros existem por aí? Nunca me senti seguro nos transportes públicos, mas a desconfiança aumentou após ter assistido ao documentário. Além da violência, o trânsito está caótico na cidade. Comprei o meu primeiro carro aos 19 anos. Não depender diretamente do transporte público me passava uma falsa sensação de segurança (foi dirigindo que sofri um sequestro relâmpago e quase morri no Chapadão). No início do ano passado, após passar mais de um ano só utilizando o carro nos finais de semana, precisava resolver um assunto na Barra da Tijuca. Fiquei tanto tempo parado em um congestionamento, que comecei a chorar de raiva. Voltei do compromisso decidido, que pela primeira vez em dez anos, eu ficaria sem carro. Vendi o carro na mesma semana e comecei a desbravar todas as opções de transporte público. Na mesma época, comecei a namorar. Só que ela mora em Niterói e eu na Zona Norte do Rio. Nesse período, desci muitas vezes de coletivos por causa da presença de usuários de drogas ou de pessoas com atitudes suspeitas. Durante a noite, quando voltava da casa dela tarde, eu tinha duas opções: contar com a sorte para não ser assaltado na rua enquanto esperava o transporte público, ou gastar quase R$ 100,00 de táxi. Cheguei à conclusão que o estresse causado pelo trânsito é mais de fácil de resolver do que o pânico de andar na rua à noite. Comprei novamente um carro. 
Sinto muita falta de três pessoas: meu Pai e meus padrinhos Áureo e Rosa. Os 3 faleceram com 70 anos ou mais. Tive a oportunidade de me despedir dos três, pois foram vitimados por doenças. Não consigo imaginar a sensação de dizer até logo para uma pessoa amada sem saber que ela não voltará. Para não perder a vida em acidentes de trânsito, dirijo com prudência, não bebo quando dirijo e etc.Como faço para me manter vivo com a violência nessa cidade? Quem será o meu algoz? Uma doença incurável, um motorista irresponsável ou uma bala perdida enquanto vou à padaria? 
O homem que matou a advogada na galeria comercial da Tijuca, foi preso em setembro do ano passado por roubo e liberado em fevereiro deste ano. A polícia conseguiu capturá-lo novamente na manhã de ontem. Quem será a próxima vítima dele quando for posto em liberdade de novo daqui a alguns meses?
Não vou ficar pensando nesta resposta agora, pois preciso descansar para sobreviver mais um dia na Cidade Maravilhosa.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Bandeira preta para o Brasil

No automobilismo o piloto é desclassificado da corrida quando recebe a bandeira preta.
O Brasil com muito esforço está merecendo a bandeira preta dos dirigentes das principais categorias do automobilismo mundial.



O cancelamento da Brasília Indy 300, faltando 40 dias para a prova, é um desastre.
Mas por que desastre se o Brasil e o país do futebol?
Porque nos últimos 25 anos da categoria, 5 campeonatos foram vencidos por pilotos brasileiros. E o primeiro deles, em 1989, foi vencido por ninguém menos que Emerson Fittipaldi, bicampeão da Fórmula 1 e um dos nomes mais importantes da história do automobilismo.
A Fórmula Indy é a segunda categoria mais importante do automobilismo, só fica atrás da Fórmula 1. Já que falei de Fórmula 1, mais uma prova que somos (ou éramos) também o país das pistas. Na categoria máxima do automobilismo mundial, tivemos 3 campeões: Emerson Fittipaldi (bicampeão), Nelson Piquet (tricampeão) e Ayrton Senna (tricampeão). Os três são considerados monstros sagrados do esporte.
O primeiro título brasileiro na F1 foi com Emerson Fittipaldi (o mesmo do primeiro título brasileiro na Indy), em 1972. Emerson tinha rivais como Jackie Stewart, Jacky Ickx, Clay Regazzoni, Ronnie Peterson, Mario Andretti, Graham Hill e Niki Lauda.
Já o último título brasileiro na F1 foi conquistado por Ayrton Senna, em 1991. Senna teve concorrentes ao título pilotos consagrados como Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell.
Em 19 temporadas da era de ouro da categoria, pilotos brasileiros ganharam 8 campeonatos.
O Brasil tem um passado glorioso no automobilismo, os adultos de hoje cresceram assistindo conquistas dos pilotos brasileiros nas manhãs e tardes de domingo.
O primeiro grande golpe foi a demolição do Autódromo de Jacarepaguá, que segundo autoridades, só aconteceria após o término das obras de um novo autódromo, em Deodoro. O projeto de Deodoro não sairá do papel, e não existe nenhuma perspectiva da cidade que já sediou provas da Fórmula 1, Fórmula Indy e Moto GP, ter um autódromo novamente.
Agora, o governo do Distrito Federal cancela a etapa de abertura da temporada 2015 da segunda maior categoria do automobilismo mundial, faltando apenas 40 dias para a realização da prova e com a maioria dos ingressos vendidos.
Dificilmente o Brasil sediará novamente uma etapa da Fórmula Indy. Sobre a Fórmula 1, o contrato da Prefeitura de São Paulo com a organização da categoria vai até 2020. Mas não é novidade que Interlagos é um autódromo ultrapassado e que alguns pilotos não gostam da pista e nem da cidade. 
Enquanto isso, a reforma do autódromo de Brasília pode parar, inutilizando definitivamente a pista.
As categorias regionais estão em extinção, a Confederação Brasileira de Automobilismo não tem poder para fazer nada e os as novas gerações continuarão achando que toda a história do automobilismo nacional se resume as histórias que os pais contam sobre aquele piloto que usava o capacete com as cores da bandeira do Brasil.
Falta pouco para desmontarem os autoramas e retirarem os bate-bates dos parques.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Renúncia

Evitar o amor...
é escolher o caminho mais fácil
é recusar uma dádiva divina
é crer que o coração só bombeia o sangue
é não dar a alguém o que você tem de melhor
é não permitir-se chorar de felicidade
é não rir do sorriso alheio
é não aprender a conjugar verbos no plural
é não aceitar que dois são mais que um
é desconfiar de você mesmo
é não enxergar de olhos fechados
é temer o desconhecido
é perder o troféu por W.O.
é rasgar o bilhete premiado da loteria
é um arrependimento eterno
é não alcançar a plenitude da vida

CANTHARINO, Renato

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Perene

Estava cansado quando você chegou
Não me canso de ser quem sou quando estou com você
Não me canso de me enxergar em seus olhos
Não me canso do brilho de seu sorriso iluminando o meu caminho
Não me canso do seu perfume em meus pulmões
Não me canso de você em meu pensamento o tempo todo
Não me canso quando você acelera o meu coração
Não me canso quando você me deixa sem ar
Não me canso da certeza que você sempre me dá
Não me canso de renascer todas as manhãs para viver você

CANTHARINO, Renato