segunda-feira, 7 de março de 2016

O preço do amor

Minha mãe sempre fala: "O Renato só ama de verdade os gatos". Essa frase nunca me atingiu, pelo contrário, pois sentir um amor verdadeiro, sem cobranças, interesses ou prazo de validade, é um privilégio. Conheço muitas pessoas que não tiveram essa experiência. Nunca fui uma pessoa solitária, nunca mesmo. Sempre estive rodeado da família, grandes amigos, namoradas... Porém, só esses pequenos animais conseguiram tirar o melhor do meu lado humano. Se um dia alguém me vir sorrindo em frente a um computador, pode ter certeza que não estou assistindo Porta dos Fundos, será algum vídeo bobo de travessuras de felinos.
Peguei meu primeiro gato, o Frajola, em 1997. Era um lorde: educado e imponente. Respeitado por todos os outros gatos e até por cachorros. Morreu em 2009, vítima de um tumor. Na verdade, 2009 foi um ano tenebroso por causa de grandes perdas: papai, um amigo de infância, um vizinho que era um tio e o meu filho Frajola. Filho, isso mesmo.
Eram cinco aqui em casa até a manhã desta segunda-feira. Cheguei do trabalho há pouco, mas só tinha um. Brooke, a mais distante de mim, herdeira do reinado que o Frajola deixou vago. Tive alguns problemas com uma vizinha grávida nas últimas semanas por causa dos gatos. Não há o que discutir com uma mulher grávida, ela sempre terá a razão. Só me restou uma opção: doar meus filhos. Fui pai, politicamente incorreto ao extremo. Falava com eles coisas capazes de estragar a formação do caráter de qualquer criança. No entanto, acho que concordavam com os meus posicionamentos.
Como era bom assistir telejornais com eles, todos os personagens que apareciam nas reportagens eram alvos de comentários. Como confiava em meus filhos, sabia que eles não espalhariam os meus pensamentos por aí. Eles também nunca questionaram meus comentários enquanto assistíamos corridas juntos. Tenho certeza de que eles acreditavam que realmente entendo de automobilismo. Também eram fãs do Soundgarden, pois nunca reclamaram do som no volume máximo e nem dos meus gritos tentando imitar os agudos do Chris Cornell. Durante os anos que dividiram espaço com a minha bateria, foram os únicos que nunca protestaram enquanto eu tocava. Sempre que me arrumava para encontrar uma nova pretendente, eu avisava: "vocês vão ganhar uma nova madrasta". Eles me respondiam com olhares, miados, lambidas, mordidinhas, arranhões ou fugas. Uma relação de cumplicidade, paciência e confiança, que acredito não ser capaz de ter com nenhuma pessoa. Praticamente, todos os meus gatos foram batizados com nome de pilotos, músicos ou personagens de séries que gosto.
Ontem à noite, quando voltava do trabalho, já sabia qual seria o destino deles na manhã de hoje. No som do carro, tocava o CD " All That You Can't Leave Behind". Foi na introdução da música " When I Look At The World" que a ficha caiu. A noite, as ruas vazias, a música, o vento e a saudade antecipada. 

Me despedi de todos antes de ir trabalhar hoje cedo. Agradeci a Sophia por tomar conta do meu carro na garagem todos os dias. Pedi desculpas ao Matt por todas vezes que o chamei de afrescalhado. Ao Chris, pedi perdão por tê-lo retirado das ruas há alguns meses e não ter cumprido a promessa de cuidar dele para sempre. Para doar a Bia tive que pedir a bênção do meu saudoso pai, pois era a gata preferida dele. Não havia óculos escuros no mundo que pudessem disfarçar meu olhar perdido no trajeto até o trabalho. A casa está assustadoramente mais vazia, a Brooke continua sem entender o que aconteceu e eu sigo pedindo a Deus que eles possam ensinar a seus futuros pais o que é o amor. Perdi o privilégio, agora, só sou mais um.

(Chris Cornell no dia que o tirei das ruas)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Milagre de São Sebastião

Foi no fim de tarde do dia 20 de janeiro de 2015. Estava trabalhando no feriado, o que é normal para um jornalista, na cobertura da procissão de São Sebastião. Tudo calmo no trajeto do Santuário dos Frades Capuchinos, na Tijuca, até a Catedral Metropolitana, no Centro.
Faltavam poucos minutos para o fim do plantão, combinei com a minha chefe que faria a última entrada no ar e fui atrás de uma personagem. Olhei ao redor e escolhi o alvo: uma senhora de cabelo curto que aparentava ter uns 70 anos. Com certeza ela teria algo bacana para contar como um pedido especial ou uma graça alcançada. Mas entre nós haviam alguns degraus. Estava a cerca de 2 metros dela, mas precisaria descer um pouco para ficarmos no mesmo nível, pois ela estava sentada na escadaria da Catedral.
Pulei de uma altura de 30 centímetros pela lateral da escadaria. Quando apoiei o pé direto no chão, me desequilibrei e virei o corpo para o lado esquerdo, fazendo um movimento de torção no joelho, seguido pela queda no chão. Senti a dor mais forte da minha vida. Havia acabado de romper o ligamento cruzado anterior do joelho, ironicamente, uma lesão típica de jogadores de futebol. Nunca tive o menor talento para o esporte que é a paixão dos brasileiros.
Por alguns segundos, meus gritos de dor disputaram com o São Sebastião a atenção dos fiéis. Fui socorrido pela senhora que seria a minha entrevistada. Como estava com o microfone e o crachá da rádio, algumas pessoas correram até o Amarelinho (carro de reportagem da Rádio Globo) para chamar o Nilson, o motorista que estava comigo naquela tarde de peregrinação. Ele me carregou até o carro e fomos direto para o hospital Copa D'Or. Fiquei devendo a última entrada no ar naquele dia.
O ortopedista da emergência nem precisou esperar o resultado dos exames para fazer o diagnóstico. Meu joelho estava "solto". Tomei analgésicos, recebi alta, marquei a consulta com o especialista e fui para casa ainda sentindo muita dor. Ao chegar novamente no Copa D'Or para a consulta, dois dias após o acidente, encontrei no consultório o Dr. Rodrigo Kaz, ex-diretor médico do Botafogo e uma das maiores autoridades em joelho no Brasil. Ufa, estava em boas mãos.
Ele examinou meu joelho e só deu uma opção para resolver o problema: cirurgia. Foi neste momento que começou o milagre. Desde a morte do papai, criei um bloqueio com cirurgias e cicatrizes ao ponto de me sentir mal se alguém começar a falar no assunto perto de mim. O caso mais extremo aconteceu há uns 4 anos numa agência bancária. Perto de mim estava uma jovem muito bonita com um vestido decotado, só que ela tinha uma enorme cicatriz no tórax que provavelmente era decorrente de uma cirurgia cardíaca. Não consegui para de olhar para a cicatriz e fui ficando impaciente, agoniado. Minutos depois joguei a toalha e saí do banco sem pagar as contas.
Como alguém com uma paranoia tão grande poderia se submeter a cirurgia de reconstrução de um ligamento? Adiei por 4 meses tentando levar uma vida normal, mesmo com dor e sem poder fazer o movimento de torção do joelho, que é a função do ligamento que eu não tinha mais. Marquei a cirurgia para o final do mês de maio. No dia anterior a cirurgia, uma funcionária do hospital me ligou e perguntou qual era a minha religião. Putz, pirei. Achei que já estavam preparando a minha extrema-unção.
Tentei me confortar na experiência do Dr. Rodrigo Kaz, e deu certo. Ele me passou a confiança necessária para vencer esse obstáculo. A cirurgia durou cerca de duas horas e foi muito bem sucedida. Começava ali a parte mais difícil: 30 dias de repouso absoluto, utilizando muletas e saindo de casa apenas para fazer fisioterapia. Nove dias após a operação, eu já me sentia apto a dirigir, e assim fui a todas as sessões de fisioterapia. Minha teimosia e impaciência estavam colaborando para que o resultado da cirurgia fosse por água abaixo.
Estava me sentido tão confiante no período final do repouso, que fui a São Paulo dirigindo. Dr. Rodrigo não sabe disso, é claro. Ouvi dele em todas as consultas de revisão: "Você é o paciente que mais me preocupa no momento, pois sua recuperação está surpreendente, melhor do que a de muitos atletas, o que pode te encorajar a passar dos limites". Eu fazia cara de bom rapaz e falava para ele não se preocupar. Voltei a trabalhar logo no início de julho, e em um dos primeiros dias de retorno, atravessei a Linha Amarela correndo para chegar ao local de um acidente. Só lembrei da cirurgia na hora que pulei a mureta central da via, doeu...
Sete meses após a cirurgia, o meu joelho está melhor do que antes do acidente. Após o fim das sessões de fisioterapia, iniciei a musculação para fortalecer o novo ligamento do joelho, que foi retirado da parte posterior da coxa. E o melhor de toda história é que a pequena cicatriz dos seis pontos não me incomoda.
Dr. Rodrigo Kaz foi muito importante, mas acredito que São Sebastião foi o principal responsável por me livrar desse trauma.

Viva, São Sebastião! 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Po..., Scott!

Porra, Scott! Essa foi a primeira frase que exclamei ao ler o título da reportagem sobre a morte do cantor Scott Weiland.
O Soundgarden é a minha banda preferida, a segunda é o Stone Temple Pilots. O STP também ocupa o mesmo lugar na vida do meu melhor amigo. No entanto, a favorita do Thiago é o Pearl Jam. Como não havia discussão sobre a segunda colocada, o Stone Temple Pilots era a banda que a gente mais ouvia na adolescência e início da fase adulta. Era a nossa referência musical quando tentamos montar uma banda. Cheguei a sonhar que a banda fazia um show na Taquara, Zona Oeste do Rio, e eu e Thiago assistíamos a apresentação de cima do palco, atrás da bateria.


Na minha opinião de noventista apegado, o STP foi a banda mais completa da geração grunge. A banda surgiu na Califórnia, um pouco distante da fria Seattle, que era o berço do grunge no início da década de 1990. Mas isso não foi um problema para o quarteto californiano, que embarcou com sucesso na onda liderada pelo Nirvana. Entre 1992 e 2001, a banda lançou 5 discos, experimentando diversas vertentes do rock em suas canções. Os álbuns nº 4, de 1999, e Shangri-la Dee Da, de 2001, são impressionantes. A banda mostra uma versatilidade tão grande nesses dois discos, que parecem coletâneas com diversos grupos. No palco, eles eram imbatíveis. Scott Weiland, Eric Kretz e os irmãos Dean e Robert DeLeo eram precisos no palco, reproduzindo com perfeição as gravações de estúdio. Mas a performance do Scott no palco era o que a mais chamava atenção.
A partir da turnê do segundo disco, Purple, de 1994, o problema de Scott com as drogas (álcool, maconha, cocaína, crack, heroína...) começou a atrapalhar a banda. Internações e prisões fizeram parte da vida dele nos últimos 20 anos.
Em 2003, a banda anunciou o fim das atividades e lançou a coletânea Thank You, que na verdade era um CD/DVD duplo. Além do CD com os maiores sucessos, o comprador levava para casa um DVD com todos os clipes, performances ao vivo e gravações feitas por fãs. A banda ainda não havia tocado por aqui e não existia nenhum registro oficial em vídeo até então. Muitos fãs brasileiros, eu inclusive, só se deram conta que eles eram monstros ao vivo, assistindo o DVD após o fim da banda. Foi uma maneira generosa de dizer "muito obrigado" aos fãs. Nesta época, até batizei de 'Scott' um cão labrador que ganhei de aniversário.
No carnaval de 2004, viajei para Nova Friburgo com alguns músicos da cena independente do Rio. Entre eles, estavam o meu grande amigo Marcelo Pedra (Piu Piu e Sua Banda / Mandril), Leonardo Panço (Soutien Xiita / Jason / Tamborete), Rodrigo Djames (Ant-Discos) / Heron (Uzômi) e Fabio Brasil (Piu Piu e Sua Banda / Jason / Detonautas).
O Fabio Brasil foi meu vizinho durante muito tempo e tocou no Piu Piu e Sua Banda, grupo que foi formado na vila onde cresci. Na época da viagem, o Detonautas estava no auge, terminando as gravações do segundo disco. Fui de carona com o Fabio e como não poderia ser diferente, o assunto foi só música. Na semana anterior ao carnaval, ele havia comprado a coletânea Thank You. O Fabio comentou que ficou impressionado com a performance da banda ao vivo. Quando chegamos a casa onde ficamos hospedados, ele falou novamente sobre o DVD com o resto do pessoal. O impacto que a coletânea Thank You causou no Fabio está presente no terceiro disco do Detonautas, Psicodeliamorsexo&distorção, lançado em 2006.
O DVD também fez muito sucesso na famosa Casa do Xhá, em Guadalupe. A residência do vocalista do ParedeVinil foi o QG do rock independente carioca nos anos de 2004 e 2005. O Stone Temple Pilots virou a segunda banda preferida de muita gente.
Com o fim da banda em 2003, sem shows no Brasil até então, já estava conformado que nunca assistira o STP ao vivo. Porém, eles se reuniram em 2008, e lançaram um disco com músicas inéditas em 2010. Só a notícia do retorno do Soundgarden me deixou mais feliz.
O disco inédito foi o que mais ouvi no ano seguinte. Quando estava chateado, bastava ouvir o CD que o sorriso aparecia fácil. Gosto de todas as músicas e a arte a capa do CD foi papel de parede do meu computador e celular durante muito tempo. O disco me passa uma vibração tão boa, que pensei em tatuar o símbolo da capa no braço. A música Cinnamon tem o poder de melhorar o meu humor até hoje.


Pela primeira vez o Brasil estava nos planos da banda. No dia 11 de dezembro de 2010, eu, Thiago e Ventura (outro grande amigo e guitarrista da tentativa de montar uma banda), ficamos extasiados com uma apresentação impecável no Circo Voador. O show entrou pra seleta lista dos melhores de nossas vidas.
Em novembro de 2011, tive a oportunidade de assistir a banda novamente no saudoso festival SWU. Desta vez, acompanhado por outros grandes amigos: Raphael, Sanmer, Gabriel (baixista na tentativa de montar uma banda de banda) e Vitor Rocha. O show não foi tão bom quanto o do Circo . Scott parecia cansado, sem voz, o que prejudicou os outros integrantes. Eles estavam sem ritmo para um show de apenas 60 minutos. Mas eu não imaginava que esse seria o nosso último encontro.


Em 2013, o Scott foi expulso da banda devido aos problemas com as drogas que sempre atrapalharam a banda. Continuei acompanhando o que ele fazia pelas postagens no facebook. Na semana passada, ele compartilhou uma publicação que me deixou muito animado. Scott disse em uma entrevista que estava cogitando um possível retorno ao STP.
A primeira notícia que li na última sexta-feira, encheu os meus olhos de lágrimas e sepultou de vez a chance de assisti-los juntos novamente. Perdi um cara que me acompanhou durante toda a juventude. Não era um bom exemplo, muito menos um herói. Mas como músico, ele conseguiu acrescentar muito na minha vida com a sua arte.
Scott Weiland era um rock star com todas as qualidade e defeitos que o papel exige. Era uma tragédia anunciada, mas um fã nunca está pronto para recebê-la. De acordo com amigos do músico, ele havia voltado recentemente a abusar de álcool e crack. Por ironia do destino, na sexta-feira, levei ao ar pela Rádio Globo a última reportagem da série “Crack - 30 anos destruindo vidas”.
Desejo que o Scott encontre realmente a paz agora.
Na sexta-feira, Cinnamon me fez chorar.


domingo, 5 de abril de 2015

Quem será o meu algoz?

Ganhei uma linda bicicleta Caloi aro 26 no dia das crianças de 1996. Após duas semanas, um homem passa na porta da vila onde eu morava, e percebe que estou descansando ao lado da minha nova bike. Ele se aproxima, ordena que eu não grite, sobe na minha bicicleta e foge. Eu tinha apenas 12 anos, só me restou gritar pedindo ajuda, depois que ele foi embora. Era uma sexta-feira, por volta das 11h, e ninguém pôde me ajudar. Durante alguns anos fiquei com a impressão que todos os homens com as mesmas características físicas eram o ladrão da minha bicicleta. Entrei em pânico algumas vezes por causa disso.
No ano seguinte, eu e minha irmã estávamos em uma agência dos Correios, quando homens armados entraram procurando uma determinada encomenda. Minha irmã ficou muito nervosa e começou a gritar. Ela correu para a porta, mas um dos homens apontou a arma para cabeça dela e disse que se ela não ficasse quieta, iria atirar. Presenciei a cena em estado de choque. Ela ficou quieta e os bandidos foram embora sem levar a tal encomenda.
No dia 08 de agosto de 2010, estava com um amigo bebendo um chope na Rua do Rio, uma área de bares e restaurantes localizada dentro do Shopping Nova América. Deixamos carteira e celular em cima da mesa, que estava num corredor que dava acesso ao banheiro. Eu não levantei da mesa em nenhum momento, mas quando fui pegar o celular para fazer uma ligação, ele não estava onde eu havia deixado. Alguém passou e furtou o celular na minha presença. O cúmulo do profissionalismo marginal.
Após quatro dias do furto do celular, estava estacionando o carro na porta de uma pizzaria na Freguesia. Quando estou guardando a frente do rádio no porta-luvas, ouço alguém batendo no meu vidro. Era um revólver acompanhado da ordem para destravar as portas. Eram dois rapazes. Um ficou no banco traseiro com o revólver encostado nas minhas costelas e o outro no banco do carona segurando uma granada. Demorei alguns minutos para entender o que realmente estava acontecendo. Era um sequestro relâmpago. Rodamos pela Freguesia durante 35 minutos, até que encontramos um caixa eletrônico numa lan house dentro da comunidade Rio das Pedras. Sacaram R$ 510,00 da minha conta. Também levaram o meu relógio, minha câmera fotográfica digital (me deixaram ficar com o cartão de memória), o celular do trabalho e um estojo de maquiagem da minha namorada na época, que estava no banco traseiro do carro. A dupla fez outras vítimas na região. Até retrato-falado eu fiz na sede da Polícia Civil, mas não sei se adiantou alguma coisa.
Dia 15 de junho de 2011 foi a comemoração do aniversário de uma grande amiga. Após o evento, levei uma amiga em casa, na Pavuna. Na volta, por volta das 02h da manhã, escolhi o caminho pela Avenida Pastor Martin Luther King Jr. (antiga Automóvel Clube). Obras estavam sendo realizadas na via e agentes de trânsito me indicaram para uma rua que dava acesso à comunidade Chapadão, uma das mais violentas da cidade. Não percebi que o desvio estava me levando para o interior da favela e continuei dirigindo com os vidros escuros fechados, farol alto ligado e som um pouco alto. Uma moto com dois jovens passa por mim em alta velocidade, mas continuei seguindo em frente. Alguns metros a frente, sou surpreendido por um paredão humano. Cerca de 10 jovens, fortemente armados, apontavam seus fuzis em minha direção. Só pensei no famoso "microondas". Parei, desci do carro com as mãos para o alto com a certeza de que aqueles seriam os últimos momentos da minha vida. Os adolescentes começaram a questionar o que eu estava fazendo na favela, se eu queria pó e coisas do tipo. Expliquei que peguei o caminho errado por causa das obras na Automóvel Clube. Eles vasculharam o carro, reviraram a mochila e a carteira. Encontraram uma câmera fotográfica semi-profissional e um gravador de bolso da Sony, pois na época eu estagiava na Rádio Metropolitana e carregava sempre os meus equipamentos. O clima começou a ficar tenso, até que eles perceberam duas baquetas e um caderno no banco do carona. Esses objetos me salvaram. Naquele dia eu tive aula de bateria mais cedo, e tudo ainda estava no carro. Então falei para os traficantes que era músico profissional, que tocava na noite, e a câmera e o gravador eram para registrar ensaios e apresentações. Eles acreditaram e me deram uma bronca por ter entrado na comunidade com os vidros fechados, farol ligado e o som alto. Um dos rapazes que estava na moto confidenciou que quase me fuzilou ainda na entrada da comunidade. Como tudo não passou de um mal entendido, eles me explicaram como sair da comunidade em segurança, devagar, com os vidros abertos e o pisca-alerta ligado. O grupo que me abordou, avisou por rádio a outra turma que estava na saída da comunidade: "O playboy do carro prata tá liberado. Deixa ele sair em paz." Fiquei surpreso com a cordialidade dos jovens após o interrogatório. Ainda trêmulo, parei num posto de gasolina em Anchieta. E foi lá que constatei algo ainda mais surpreendente: eles não pegaram absolutamente nada meu, nem o dinheiro da carteira.
Em novembro do mesmo ano, fui a Paulínia (SP) assistir ao festival SWU. Novamente roubaram o celular sem que eu percebesse. Estava no bolso de trás da calça jeans. O pior é que foi justo na hora que saí sozinho para lanchar. Por este motivo, fiquei parte do evento sozinho, sem conseguir encontrar meus amigos. Um pouco antes do último show terminar, encontrei 3 dos 7 amigos que estavam lá.
No carnaval de 2014, fiz pela Rádio Globo a cobertura da Banda de Ipanema. Na multidão, algum punguista (papai adorava esse termo) desabotoou o bolso da minha bermuda cargo e roubou a minha carteira de habilitação e o meu dinheiro. Eu estava com o crachá da rádio, vestindo uma camisa pólo azul com o nome "Rádio Globo" em letras garrafais.
Primeiro de março de 2015, comemoração dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro num mega show na Quinta da Boa Vista. Novamente entrei no meio da multidão, para fazer boas imagens do palco. Quando me afastei para fazer uma entrada ao vivo, coloquei a mão no bolso da bermuda cargo para pegar o Iphone da rádio, mas o celular não estava lá. Fui vítima de um punguista mais uma vez. E como era uma cobertura festiva, também estava usando o crachá e vestindo a camisa pólo azul com o nome "Rádio Globo" em letras garrafais.
Felizmente não sofri agressões físicas durante as ações criminosas das quais fui vítima.
Precisava detalhar todo o meu histórico de vítima da criminalidade para poder prosseguir o raciocínio.
Na Sexta-Feira Santa, me senti como em 1996. Entrei em pânico após assistir à primeira edição do RJ TV. Um menino de 10 anos morto porque segurava um celular. Uma mulher morta em uma galeria que eu costumo utilizar como travessia. O corpo de uma jovem de 17 anos, que malhava na mesma academia que eu frequentei, foi encontrado em um rio. A agência bancária, que fica à 500 metros da minha casa, foi assaltada duas vezes em menos de um mês. Eu não queria sair de casa na sexta-feira. Pedi a proteção divina e segui para a rádio. Mais três casos no fim de semana me deixaram ainda mais deprimido: um homem morre atingido por uma bala perdida em um ponto de ônibus, um homem encontrado morto dentro de um táxi em Parada de Lucas e duas pessoas morrem durante troca de tiros dentro de um coletivo em Niterói.
Assisti ao documentário "Ônibus 174" no início deste ano. Foi uma nova visão para um caso que acompanhei com a ótica adolescente em 12 de junho de 2000. Quantos Sandros existem por aí? Nunca me senti seguro nos transportes públicos, mas a desconfiança aumentou após ter assistido ao documentário. Além da violência, o trânsito está caótico na cidade. Comprei o meu primeiro carro aos 19 anos. Não depender diretamente do transporte público me passava uma falsa sensação de segurança (foi dirigindo que sofri um sequestro relâmpago e quase morri no Chapadão). No início do ano passado, após passar mais de um ano só utilizando o carro nos finais de semana, precisava resolver um assunto na Barra da Tijuca. Fiquei tanto tempo parado em um congestionamento, que comecei a chorar de raiva. Voltei do compromisso decidido, que pela primeira vez em dez anos, eu ficaria sem carro. Vendi o carro na mesma semana e comecei a desbravar todas as opções de transporte público. Na mesma época, comecei a namorar. Só que ela mora em Niterói e eu na Zona Norte do Rio. Nesse período, desci muitas vezes de coletivos por causa da presença de usuários de drogas ou de pessoas com atitudes suspeitas. Durante a noite, quando voltava da casa dela tarde, eu tinha duas opções: contar com a sorte para não ser assaltado na rua enquanto esperava o transporte público, ou gastar quase R$ 100,00 de táxi. Cheguei à conclusão que o estresse causado pelo trânsito é mais de fácil de resolver do que o pânico de andar na rua à noite. Comprei novamente um carro. 
Sinto muita falta de três pessoas: meu Pai e meus padrinhos Áureo e Rosa. Os 3 faleceram com 70 anos ou mais. Tive a oportunidade de me despedir dos três, pois foram vitimados por doenças. Não consigo imaginar a sensação de dizer até logo para uma pessoa amada sem saber que ela não voltará. Para não perder a vida em acidentes de trânsito, dirijo com prudência, não bebo quando dirijo e etc.Como faço para me manter vivo com a violência nessa cidade? Quem será o meu algoz? Uma doença incurável, um motorista irresponsável ou uma bala perdida enquanto vou à padaria? 
O homem que matou a advogada na galeria comercial da Tijuca, foi preso em setembro do ano passado por roubo e liberado em fevereiro deste ano. A polícia conseguiu capturá-lo novamente na manhã de ontem. Quem será a próxima vítima dele quando for posto em liberdade de novo daqui a alguns meses?
Não vou ficar pensando nesta resposta agora, pois preciso descansar para sobreviver mais um dia na Cidade Maravilhosa.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Bandeira preta para o Brasil

No automobilismo o piloto é desclassificado da corrida quando recebe a bandeira preta.
O Brasil com muito esforço está merecendo a bandeira preta dos dirigentes das principais categorias do automobilismo mundial.



O cancelamento da Brasília Indy 300, faltando 40 dias para a prova, é um desastre.
Mas por que desastre se o Brasil e o país do futebol?
Porque nos últimos 25 anos da categoria, 5 campeonatos foram vencidos por pilotos brasileiros. E o primeiro deles, em 1989, foi vencido por ninguém menos que Emerson Fittipaldi, bicampeão da Fórmula 1 e um dos nomes mais importantes da história do automobilismo.
A Fórmula Indy é a segunda categoria mais importante do automobilismo, só fica atrás da Fórmula 1. Já que falei de Fórmula 1, mais uma prova que somos (ou éramos) também o país das pistas. Na categoria máxima do automobilismo mundial, tivemos 3 campeões: Emerson Fittipaldi (bicampeão), Nelson Piquet (tricampeão) e Ayrton Senna (tricampeão). Os três são considerados monstros sagrados do esporte.
O primeiro título brasileiro na F1 foi com Emerson Fittipaldi (o mesmo do primeiro título brasileiro na Indy), em 1972. Emerson tinha rivais como Jackie Stewart, Jacky Ickx, Clay Regazzoni, Ronnie Peterson, Mario Andretti, Graham Hill e Niki Lauda.
Já o último título brasileiro na F1 foi conquistado por Ayrton Senna, em 1991. Senna teve concorrentes ao título pilotos consagrados como Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell.
Em 19 temporadas da era de ouro da categoria, pilotos brasileiros ganharam 8 campeonatos.
O Brasil tem um passado glorioso no automobilismo, os adultos de hoje cresceram assistindo conquistas dos pilotos brasileiros nas manhãs e tardes de domingo.
O primeiro grande golpe foi a demolição do Autódromo de Jacarepaguá, que segundo autoridades, só aconteceria após o término das obras de um novo autódromo, em Deodoro. O projeto de Deodoro não sairá do papel, e não existe nenhuma perspectiva da cidade que já sediou provas da Fórmula 1, Fórmula Indy e Moto GP, ter um autódromo novamente.
Agora, o governo do Distrito Federal cancela a etapa de abertura da temporada 2015 da segunda maior categoria do automobilismo mundial, faltando apenas 40 dias para a realização da prova e com a maioria dos ingressos vendidos.
Dificilmente o Brasil sediará novamente uma etapa da Fórmula Indy. Sobre a Fórmula 1, o contrato da Prefeitura de São Paulo com a organização da categoria vai até 2020. Mas não é novidade que Interlagos é um autódromo ultrapassado e que alguns pilotos não gostam da pista e nem da cidade. 
Enquanto isso, a reforma do autódromo de Brasília pode parar, inutilizando definitivamente a pista.
As categorias regionais estão em extinção, a Confederação Brasileira de Automobilismo não tem poder para fazer nada e os as novas gerações continuarão achando que toda a história do automobilismo nacional se resume as histórias que os pais contam sobre aquele piloto que usava o capacete com as cores da bandeira do Brasil.
Falta pouco para desmontarem os autoramas e retirarem os bate-bates dos parques.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Renúncia

Evitar o amor...
é escolher o caminho mais fácil
é recusar uma dádiva divina
é crer que o coração só bombeia o sangue
é não dar a alguém o que você tem de melhor
é não permitir-se chorar de felicidade
é não rir do sorriso alheio
é não aprender a conjugar verbos no plural
é não aceitar que dois são mais que um
é desconfiar de você mesmo
é não enxergar de olhos fechados
é temer o desconhecido
é perder o troféu por W.O.
é rasgar o bilhete premiado da loteria
é um arrependimento eterno
é não alcançar a plenitude da vida

CANTHARINO, Renato

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Perene

Estava cansado quando você chegou
Não me canso de ser quem sou quando estou com você
Não me canso de me enxergar em seus olhos
Não me canso do brilho de seu sorriso iluminando o meu caminho
Não me canso do seu perfume em meus pulmões
Não me canso de você em meu pensamento o tempo todo
Não me canso quando você acelera o meu coração
Não me canso quando você me deixa sem ar
Não me canso da certeza que você sempre me dá
Não me canso de renascer todas as manhãs para viver você

CANTHARINO, Renato

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Obrigado, campeão!

Quando o Ayrton Senna morreu, em maio de 1994, assistir Fórmula 1 era um programa familiar dominical. Não precisava gostar ou entender de automobilismo, era só torcer para o hino nacional ser executado no pódio (muita gente gostava mais do "tam nam nam, tam nam nam" na linha de chegada). Senna morreu, o Brasil todo chorou, minha irmã fez uma redação sobre aquele 1º de maio que foi considerada "espetacular" pelo professor Pedro, com direito a parabéns da diretora do colégio e cópias espalhadas por todos os cantos. O professor Pedro também me elogiava, minhas redações recebiam as notas mais altas da turma (minha irmã estava 5 séries na minha frente), mas carrego a frustração de nunca ter sido "espetacular" na disciplina do meu professor preferido.
No final de 1994, o mundo conheceu um novo campeão, que se tornaria um fenômeno das pistas alguns anos depois: Michael Schumacher.
Em 1995, assistir Fórmula 1 já era um programa solitário, pois para a minha família e também para boa parte dos brasileiros, a categoria não tinha mais graça sem o Senna. Mas fui fiel, e a cada corrida eu me apaixonava mais. Estou falando de 1995, não existia o google e internet ainda era coisa de outro mundo. Eu só tinha acesso as notícias do automobilismo pela TV Globo, que transmitia a Fórmula 1, e pelo SBT, que iniciou a transmissão da Fórmula Indy naquele ano.

A primeira corrida transmitida pelo SBT foi as 200 Milhas de Miami. Seis pilotos brasileiros disputavam a categoria em 1995, mas a corrida que marcava a estreia da Indy na programação do canal, foi vencida por um  jovem piloto canadense chamado Jacques Villeneuve. Só depois de alguns anos, após o surgimento do milagre da internet, descobri que o pai dele foi um dos melhores pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos. No ano anterior, o canadense, piloto do carro 27 da equipe Forsythe/Green (número imortalizado por seu pai na Ferrari), foi considerado o estreante do ano, vencendo a prova de Elkhart Lake e terminando a temporada na sexta posição. (Vídeo: Vitória de Jacques Villeneuve nas 200 Milhas de Elkhart Lake de 1994)
Após a vitória na etapa de estreia da temporada de 1995, o jovem Jacques Villeneuve já era o piloto mais badalado da categoria. A segunda vitória do canadense na temporada, aconteceu no dia 28 de maio, na mais tradicional prova do automobilismo mundial: 500 Milhas de Indianápolis. (Vídeo: Vitória de Jacques Villeneuve nas 500 Milhas de Indianápolis de 1995
Villeneuve ganhou mais duas corridas na temporada e sagrou-se campeão deixando pra trás na tabela ícones do automobilismo mundial como Al Unser Jr., Bobby Rahal e Emerson Fittipaldi. (Vídeo: Vitória de Jacques Villeneuve nas 200 Milhas de Miami de 1995)
O arrojo do Villeneuve nas pistas me encantava, e no final de 1995, já estava definido quem era o meu ídolo no automobilismo.
Após a ascensão meteórica na Fórmula Indy, a equipe Williams ofereceu uma vaga para Villeneuve correr na principal categoria do automobilismo mundial.

Já na etapa de estreia na Fórmula 1, Jacques fez a pole position e terminou a corrida na segunda colocação, após uma disputa de posição com Damon Hill digna de Gillles Villeneuve. (Vídeo: Jacques Villeneuve x Damon Hill - GP da Austrália de 1996)
Novamente todas as atenções do mundo automobilístico se voltaram para o canadense. Jacques Villeneuve terminou a temporada de estreia na segunda colocação, apenas três pontos atrás do campeão e companheiro de equipe, o já experiente Damon Hill.
Em 1997, Jacques teve como principal rival o alemão Michael Schumacher. O título de 1997 foi decidido numa manobra desleal do alemão da Ferrari, que bateu propositalmente em Villeneuve durante uma ultrapassagem, repetindo a tática suja que o fez campeão do mundo em 1994, contra o inglês Damon Hill. Só que em 1997 o plano não deu certo, o alemão abandonou a prova e o canadense que podia chegar até em sexto, recebeu a bandeirada do GP de Jerez em terceiro e garantiu o campeonato, em seu segundo ano na categoria. Novamente Villeneuve foi o destaque da temporada, ganhando 7 das 17 provas disputadas no ano. (Vídeo: Villeneuve x Schumacher - GP de Jerez de La Frontera de 1997)

Num período de apenas 4 anos, Jacques Villeneuve debutou e foi campeão nas duas principais categorias do automobilismo mundial. Por isso considero o canadense o piloto mais bem sucedido da década de 1990.
Apenas quatro pilotos foram campeões nas duas categorias: Emerson Fittipaldi, Mario Andretti, Nigel Mansell e Jacques Villeneuve. Sendo que o canadense foi o único que primeiro foi campeão da Indy e depois da Fórmula 1. Fazer parte desse seleto grupo já coloca o Jacques Villeneuve entre os maiores pilotos da história do automobilismo mundial.
Outros dois pilotos contemporâneos de Villeneuve tentaram sem sucesso repetir o feito do canadense: 
Alessandro Zanardi - Participou de forma inexpressiva de quatro temporadas da Fórmula 1 no início da década de 1990. Foi para a Indy em 1996 e ganhou os títulos de 1997 e 1998 de forma incontestável. Retornou à Fórmula 1 em 1999 pela Williams, mas terminou a temporada na 19ª posição, sem marcar nenhum ponto. Voltou para a Indy em 2001, mas sofreu um grave acidente no circuito oval EuroSpeedway Lausitz, na Alemanha, e teve as duas pernas amputadas.
Juan Pablo Montoya - Assumiu o lugar deixado por Zanardi na equipe Chip Ganassi e foi campeão da Fórmula Indy logo na temporada de estreia, em 1999. Em 2001 seguiu para a Fórmula 1 pela Williams. Ficou seis temporadas na categoria e seus melhores resultados foram dois campeonatos terminados na 3ª posição. É um ótimo piloto, mas entrou no categoria no auge da Era Schumacher e ficou só na promessa.

Jacques Villeneuve estava no auge da carreira no início de 1998, era sem dúvida o piloto mais arrojado e corajoso da categoria. Além das qualidades como piloto, Villeneuve era o bad boy do circo da Fórmula 1: sempre dava declarações polêmicas provocando outros pilotos, não gostava de cumprir compromissos de patrocinadores e aparecia sempre com um visual diferente, tingindo os fios de cabelo (originalmente castanhos) de loiro, azul e vermelho.
Mas em 1998 a Williams errou a mão na concepção do carro, e Villeneuve não teve condições para brigar com as McLarens e Ferraris, terminando o campeonato na quinta colocação, sem nenhuma vitória.
Em 1999, Jaques Villeneuve apostou numa nova equipe, a British American Racing, que tinha o seu empresário, Craig Pollock, como um dos sócios. Esta decisão marcou o início da decadência do campeão de 1997 na Fórmula 1. 
Villeneuve pilotou sem sucesso a BAR até a temporada de 2003. Quando descobriu que não teria o contrato renovado para a temporada de 2004, Villeneuve abandonou a equipe faltando duas corridas para o fim da temporada.
A temporada de 2004 da Fórmula 1 começou sem a presença do piloto canadense no grid. Mas após a equipe Renault demitir o italiano Jarno Trulli na parte final do campeonato, Villeneuve teve a oportunidade de disputar 3 etapas pela equipe francesa.
Villeneuve conseguiu uma vaga na Sauber para disputar na íntegra a temporada de 2005. O carro era ruim e o campeão de 1997 terminou a temporada na 14ª colocação. Mesmo com os resultados ruins, Villeneuve protagonizou a manobra mais bonita da temporada: Na etapa da Bélgica, no circuito de Spa-Francorchamps, Villeneuve conseguiu segurar o carro no mergulho da curva Eau Rouge (a mais perigosa da F1) após perder a traseira. 
A equipe Sauber foi comprada pela BMW no final de 2005, e os novos proprietários não estavam satisfeitos com o desempenho do canadense. Jacques Villeneuve foi demitido após a 12ª etapa da temporada da temporada de 2006, cedendo o cockpit da equipe para o jovem polonês Robert Kubica. Nessa altura, Jacques já era um piloto aposentado em atividade.
E foi assim, pela porta dos fundos, que o meu ídolo deu adeus à Fórmula 1.
Jacques quase voltou à Fórmula 1 em 2010, com a promessa da entrada da equipe sérvia Stefan GP na categoria. Mas a equipe foi preterida pela FIA poucas semanas antes do início da temporada. Mas já era tarde demais, comprei com 8 meses de antecedência os ingressos, passagens e reservei hotel para assistir o GP de Interlagos daquele ano, achando que teria a oportunidade de ver de perto o Jacques correndo. A frustração só não foi maior, porque vi o Michael Schumacher pilotando. Neste mesmo ano comecei a gravar boletins diários sobre Fórmula 1 para a Rádio 10, que na época era uma das web rádios mais ouvidas do Brasil. E em 2011, fui convidado para participar do programa CJC Esportes, do Canal CJC, que faz parte da Nossa TV, operadora de TV por assinatura do RR Soares. Participava semanalmente do programa comentando as notícias do mundo automobilístico. Infelizmente abandonei os dois projetos no início de 2012, pois estava sobrecarregado com o trabalho e o último ano da faculdade.

Além do Jacques Villeneuve, torci bastante para outros pilotos da F1, entre eles: Jarno Trulli, Nick Heidfeld e Adrian Sutil.
Voltando à Fórmula Indy, continuei acompanhado a categoria mesmo após a saída do Jacques Villeneuve, pois outro canadense alegrava as minhas tardes de domingo: Paul Tracy. Rápido e inconsequente, o piloto era tratado pela imprensa brasileira como "Sr. Apronta Tudo". Além das inúmeras batidas, ele protagonizou cenas de briga de rua nas pistas e nos boxes. Um verdadeiro anti-herói. Das centenas de corridas que já assisti até hoje, uma vitória do Paul Tracy me marcou: a Rio 200 em 1997. Foi uma vitória heróica em uma prova muito disputada. Se a minha memória não falha, foi a última corrida que assisti na casa dos meus saudosos padrinhos, o que dá o tom forte de saudade dessa lembrança. Paul Tracy sagrou-se campeão em 2003 e fez a última corrida pela Indy em outubro de 2011, após disputar a categoria por 20 anos. (Vídeo: Paul Tracy - O Sr. Apronta Tudo)
A última etapa da temporada 2011 da Indy foi em Las Vegas, no dia 16 de outubro de 2011. Como já tinha madrugado para assistir o Grande Prêmio da Coreia do Sul de Fórmula 1, fui ao cinema a tarde com a namorada e não assisti a prova da Indy. O filme acabou e decidimos jantar, o que atrasou ainda mais o meu retorno para casa. Quando finalmente cheguei, às 23h, liguei o computador e acessei o site Grande Prêmio. O título da notícia em destaque era "Após acidente grave, Dan Wheldon não resiste e morre na F-Indy". Cliquei no link e perplexo, li e reli várias vezes a matéria, enquanto as lágrimas não paravam de escorrer pelo meu rosto. Dan Wheldon era o meu piloto favorito da geração 2000. Foi campeão da Indy em 2005 e também venceu as 500 Milhas de Indianápolis no mesmo ano, fato que se repetiu em 2011.
Foi a primeira vez que a morte de um piloto me abalou. Paul Tracy, também envolvido no grave acidente que vitimou Dan Wheldon, decidiu se aposentar após a trágica corrida.
Além de Paul Tracy e Dan Wheldon, também torcia na Indy pro Jimmy Vasser, Dario Franchitti, e Adrián Fernández.

Mas a Indy voltou a me alegrar no início deste ano, com a notícia de que o Jacques Villeneuve disputaria as 500 Milhas de Indianápolis, após 19 anos de sua última participação na prova.
Havia 8 anos que Jacques não competia numa categoria de monoposto, por isso nem criei muitas expectativas.
Mas o dia chegou, foi no último domingo, e repeti todo o ritual que fazia na década de 1990, trancando a porta do quarto, fechando as cortinas e desativando qualquer aparelho telefônico que pudesse me atrapalhar durante a corrida. Ele largou na 27ª posição, lembrando que 27 é o número eternizado no automobilismo pelo pai dele, Gilles Villeneuve, e que foi utilizado também por Jacques na Indy e em outras categorias. A TV americana quase não mostrou o Villeneuve durante a corrida, pois a briga no pelotão da frente estava muito boa. Após um pouco mais de três horas de prova, o vencedor das 500 Milhas Indianápolis de 1995 cruzava a linha de chegada na 14ª posição. Um bom resultado para quem estava longe da categoria havia quase duas décadas. Jacques já está com 43 anos, e essa pode ter sido a última oportunidade de vê-lo pilotar numa categoria de ponta.


Obrigado, Jacques Villeneuve!

PS: Não posso falar do início da minha paixão pelo automobilismo na década de 1990 e sem citar o piloto da Fórmula Truck Eduardo Fráguas, o "Mad Macarrão". Um caminhoneiro doido que utilizou as economias para comprar um Volvo 1987 e prepará-lo sem nenhum apoio para a temporada de estreia da categoria, em 1996. A paixão dele pelo esporte ficava explícita na forma de pilotar. Um piloto brasileiro com o espírito canadense, uma mistura de Gilles Villeneuve com Paul Tracy. Inesquecível o pega com o Luiz Lanzoni pela nona posição no circuito de Guaporé. (Vídeo: Show do Mad Macarrão em Guaporé)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Adeus sem remorso

Não há adjetivos para classificar a experiência transcendental que foi o show do Soundgarden ontem.
Apenas comprovei de perto o que defendo há anos: Soundgarden é a melhor banda de rock dos últimos 30 anos.
A banda me entorpeceu durante 90 minutos: cantei de olhos fechados com as mãos erguidas para o céu, toquei instrumentos imaginários e gritei frases desconexas até ficar sem voz.
Quando o show terminou e o momento de transe passou, fui embora deixando estático na frente do palco o que ainda restava da minha adolescência, de all star e camisa xadrez.


Finalmente completei a lista de shows dos meus artistas preferidos:
1 - Soundgarden (2014)
2 - Pearl Jam (2005 e 2011)
3 - Stone Temple Pilots (2010 e 2011)
4 - Oasis (2001 e 2009)
5 - Faith no More (2009 e 2011)
6 - Alice in Chains (2011)

Valeu cada dia de espera nos últimos 18 anos.


Obrigado, Soundgarden!


PS: É de se estranhar que o texto sobre show da minha seja tão curto, mas não tenho a mínima chance de fazer uma análise fria e imparcial do que foi a apresentação da banda no Lollapalooza Brasil. Deixo esse papel para o meu amigo Marcos Bragatto, do site Rock em Geral

sábado, 5 de abril de 2014

O dia que quase matou o rock

Nas últimas duas décadas, vi muitas pessoas negando que um dia foram fãs do Nirvana, mas nunca entendi o motivo.
Eu tinha 10 anos em 5 de abril de 1994, mas sabia que a música perdia um grande artista naquele dia.
Foi após ouvir a música "Lithium", que tive certeza que o rock seria a trilha sonora da minha vida.
Quando o Nirvana apareceu com a guitarra desafinada, letras escatológicas e roupas dignas de moradores de rua, o cenário do rock mundial estava tomado por homens de cabelos longos bem tratados, olhos pintados, roupas de couro apertadas e solos para todos os lados. Na mesma Seattle onde surgiu o Nirvana, o Chris Cornell cantava no Soundgarden usando argolas enormes nas orelhas até 1990. Já Jeff Ament e Stone Gossard, fundadores do Pearl Jam, tocavam no Green River com roupas parecidas com as dos integrantes do Skid Row.
No Brasil, a juventude estava decepcionada e descrente. Após passar boa parte da década de 1980 cantando hinos contra a ditadura, o primeiro presidente eleito foi o Fernando Collor. O Titãs não perdeu tempo e conseguiu capturar toda a vibração rebelde vinda de Seattle no ótimo álbum "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora", lançado em 1991.
No início da década de 1990, a juventude queria sair dos padrões, gritar sem se preocupar em passar mensagens. Era uma forma de descarrego, colocando para fora toda a fúria acumulada desde o final da década de 1960, quando a juventude tinha expressado suas ideias através da música pela última vez.

Melhor registro em vídeo já divulgado de um show do Nirvana

Poucas vezes um movimento musical foi tão legítimo e influente como o grunge, e o Kurt Cobain foi o principal responsável por isso.
Se estivesse vivo, não sei se a angústia causada pela fama e os vícios deixariam o Kurt ter feito algo relevante após 1994. Mas ele merecia ter vivido mais para presenciar sua influência nas gerações seguintes do rock.
Alguns só lembram do cara que era viciado em heroína, que mostrou o pênis na TV a durante a transmissão do Hollywood Rock. 
Eu lembrarei para sempre como a principal voz da minha geração!

Uniformizado de roqueiro num Natal da década de 1990

PS: O movimento grunge ficou mundialmente conhecido através de 4 bandas: Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains. Depois de 8 anos da morte de Kurt Cobain, outro problemático vocalista  da era grunge morreu por causa de problemas com drogas, o sombrio Layne Staley, do Alice in Chains. O corpo dele foi encontrado por policiais no seu próprio apartamento já entrando em estado de decomposição, no dia 19 de abril de 2002. Após a perícia, os legistas determinaram a data certa da morte do músico. Adivinhem? 5 de abril de 2002.
Triste coincidência...