terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Calendário

O calendário não importa quando...
As almas se encontram
O abraço abriga
O sorriso ilumina
O olhar penetra
O beijo é ardente e doce
O suor se mistura
O suspiro soa como sinfonia
O respeito impera
O sonho se multiplica
O coração bate em outro peito
A saudade confirma
Dias, meses e anos não importam quando a paixão transforma a medida de tempo em eternidade
Quando o calendário perde a importância, o papel cheio de números passa a ser o bilhete premiado na loteria da vida

CANTHARINO, Renato

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Dez anos do dia que não terminou

Paizão, hoje, quando a sua morte completa 10 anos, não há porque ficar triste. No fim da tarde de 10 de janeiro de 2009, quando a minha mãe voltou do hospital e disse para que eu corresse para lá, pois de acordo com os médicos, aquele deveria ser o seu último dia, pedi a Deus, durante os vinte quilômetros que nos separavam, para que o senhor me esperasse. Cheguei a tempo e o senhor me concedeu os últimos 15 minutos da sua vida a sós naquele quarto. Foram os 15 minutos mais rápidos da minha vida, porém, suficientes para que eu falasse tudo que era necessário na nossa despedida. Quando eu comecei a rezar e os seus batimentos foram parando, eu não tive a menor dúvida que Deus estava naquele quarto te levando com carinho para o lado dele. Um silêncio perturbador tomou conta do sétimo andar daquele hospital. Mas não eu não era o único que estava chorando. O seu médico, que quatro anos antes era residente e participou da equipe que o salvou pela primeira vez, naquele plantão, era o responsável pelo andar. Eu tinha acabado de perder meu pai, minha maior referência. No entanto, ele também estava perdendo o caso que um dia foi o orgulho de uma equipe muito competente e dedicada. Ele foi o primeiro a entrar no quarto após o monitor cardíaco zerar. Com os olhos marejados e a tranquilidade de quem já esperava aquela situação, ele não disse nada, apenas me deu um abraço e logo em seguida posicionou as suas mãos ao lado do quadril. O senhor era muito mais amado do que imaginava. Naquela noite, o saguão do hospital parecia o quintal da nossa casa num fim de semana, quando muitos dos meus amigos ficavam batendo papo e brincando com o senhor.


Nunca vou conseguir retribuir o que eles, que também o consideravam como um pai, fizeram por mim, pela mamãe e pela Tatiana naquela noite. No dia seguinte, quando foi realizado o seu velório, a tristeza foi substituída por um momento de celebração do amor. Amigos que até então, nunca haviam entrado em um cemitério, mesmo que fosse para se despedir de parentes, debutaram naquele dia. Se um estranho chegasse naquele momento, teria dificuldade de identificar quem era realmente o seu filho de sangue, pois a dor parecia ser igual pra todo mundo. Por isso, quando chegou a hora de decidir o que fazer com as suas cinzas, não tive dúvida: o mirante de Paquetá, onde o senhor, no ano anterior, havia levado boa tarde da turma pra conhecer, num dia em que eu, o senhor e meus melhores amigos nos divertimos como crianças de 7 anos, mesmo com todos já na fase adulta.


Nesses últimos dez anos, muita coisa aconteceu, pai. Após trancar a faculdade de publicidade para estudar rádio, comecei a cursar jornalismo, dois meses após a sua morte. Já no primeiro dia de aula, conheci a mulher com quem eu me ‘casaria’ no ano seguinte. Ironicamente, ela faz aniversário no dia 10 de janeiro. Do grupo dos meus amigos que o senhor considerava todos como filhos, eu fui o primeiro a juntar as escovas de dente. Porém, fui o único que se separou. Rs... Seus outros filhos construíram famílias lindas e o Thiago, o que gente mais zoava, te deu até um neto, mas não foi o único. Muitos não estão mais morando no Rio, alguns até fora do país, mas mantenho contato com todos. Depois do casamento que deu certo por pouco tempo, tive algumas namoradas. Sempre pensava rindo: “essa o papai ia adorar” ou “o papai ia falar que essa é chatinha”. Nos últimos dez anos, novos grandes amigos entraram na minha vida e consigo imaginá-los colocando pilha no senhor pra me zoar, como faziam Thiago, Cabeça, Sanmer e outros. A minha maior qualidade continua sendo saber escolher bem as pessoas ao meu redor.


O senhor lembra quando eu estudava locução e ia trabalhar de graça em rádios comunitárias só pra treinar? O senhor ficava em casa mudando o rádio de local só pra conseguir me sintonizar, mesmo com muito chiado e ruídos. Então, quando me formei em jornalismo, ingressei na Rádio Globo, a emissora que eu ouvi com o senhor a vida toda para acompanhar os jogos do seu amado Flamengo. Que me perdoe o incrível José Carlos Araújo (Garotinho), mas o Edson Mauro sempre foi o nosso preferido. O moleque que ficava imitando o bordão “maaaaaaarrrrrque o tempoooo”, se tornou colega de empresa e amigo do ídolo. Se eu pudesse enviar apenas uma coisa para o céu, seria um rádio para que o senhor pudesse me ouvir em alto e bom som junto com a Tia Rosa e o Tio Áureo. Acho que o senhor ficaria bobo com o seu ‘filhão’. Quando o senhor partiu, o rádio era apenas um sonho meu, que acabou se tornando realidade da forma mais bonita. É, o senhor não teve um filho advogado e nem segui a carreira política, como foi o seu desejo no fim da vida, mas pode ter certeza, que nos últimos 6 anos, com o microfone na mão fiz mais justiça e lutei mais pela nossa cidade do que o homem da lei ou o vereador que eu poderia ter me tornado. Já fiz muita coisa bacana na carreira, mas o que mais mexeu comigo até hoje foi ser o repórter do Amarelinho em coberturas esportivas importantes, como a abertura da jornada esportiva da Copa do Mundo no Brasil ou a final da Copa do Brasil de 2013, quando o Flamengo sagrou-se campeão. Só o senhor vinha à minha cabeça durante as entradas no ar. Lembra também que eu ficava ao seu lado imitando o Alberto Brandão? Pena que o senhor não pôde ver como um dos substitutos dele nos jogos no Maracanã. Levei dois anos pra criar coragem de abordar o Edson Mauro e contar como o trabalho foi importante nos meus fins de semana com o senhor. Desde então, passamos de colegas de trabalho para amigos, que se falam sempre com muito carinho e respeito. A profissão também me proporcionou conhecer e me tornar amigo do Iseumar Pereira, o seu locutor preferido da JB e que fazia questão de ouvir todas as noites, mesmo quando estava internado. Ele ficou muito emocionado quando a contei história toda pra ele, principalmente a parte que envolve a música ‘Fragile’ do Sting. Dez anos depois, a minha mãe ainda chora toda vez que essa canção toca no rádio. Horas antes do senhor partir, passeio por uma loja de instrumentos musicais e comprei um violão. Ele está guardado, intacto, pois nunca aprendi a tocar instrumentos de corda. Até tive uma bateria por alguns anos, mas precisava fazer as pazes com os vizinhos e vendi. Quando o Thiago foi morar em São Paulo, me deu o piano que ele tinha em casa, mas tô com uma preguiça de entrar na aula. Mas não posso ir embora desse mundo sem saber tocar a música da sua vida no violão que comprei há exatos 10 anos:


Pai, me desculpa, mas nunca gostei de futebol. Torcia pro Flamengo só porque era a forma de acompanhá-lo num momento que te deixava tão feliz. Minha parada sempre foi automobilismo. Falando nisso, lembra qual foi o nosso último momento marcante em casa juntos antes do senhor ser internado pela última vez? Nós dois assistindo o GP Brasil de Fórmula 1 e o Felipe Massa ficou na posição de campeão por 35 segundos, tempo suficiente para que eu rasgasse a roupa numa crise eufórica e ficasse apenas de cueca gritando ao seu lado, enquanto o senhor me olhava assustado. Mas não adiantou nada, pois o Lewis Hamilton ultrapassou o Timo Glock e o sonho foi por água abaixo naquele temporal de 2 de novembro. Desde então, nenhum outro brasileiro chegou tão perto de ser campeão na principal categoria do automobilismo mundial.
Das coisas que fazíamos juntos, apenas uma não consegui continuar: assistir Chaves e Chapolin. Não faz o mínimo sentido ver pela trigésima vez o mesmo episódio sem ter o senhor ao lado pra rir, mesmo que antecipássemos todas as falas e piadas dos episódios. O dia da morte do Roberto Bolaños foi muito difícil pra mim, pois devia a ele milhares de horas que passamos juntos em casa durante 25 anos.
Sonhei pouquíssimas vezes com o senhor desde a sua morte, mas teve um momento em que te senti presente ao meu lado: show do Elton John na Apoteose, em 2017. Evitei algumas vezes de ir ao show de um dos nossos artistas preferidos, mas quando criei coragem, foi um momento lindo! Chorei mais do que cantei, mas de alegria. Ao mesmo tempo, tinha certeza que estávamos compartilhando aquele momento.
Nos últimos anos, comecei com um hobby que eu tenho certeza que o senhor ia adorar: antigomobilismo. Procurei, mas procurei muito por um Fusca laranja granada, igual ao seu primeiro carro. Cheguei a ir olhar um a mais de duzentos quilômetros daqui, mas não encontrei nenhum bom. Comprei um do mesmo ano do seu, mas é vermelho cereja. Fico pensado como o senhor, com a mistura de formalidade e sacanagem (no melhor sentido da palavra), seria popular no meio. Falando no seu jeito, minha mãe sempre diz que a cada dia minha personalidade está ficando mais parecida com a do senhor. Também me divirto tirando as pessoas mais próximas do sério e volta e meia falo uma frase absurda para poder deixar todo chocado e acabar com o assunto. Rs...
Lembra da Brooke, a gata que o senhor chamava de ‘preta ou branca’ ou ‘botafoguense’? Ela está enorme, parecendo um urso panda, só come e dorme. O Frajola morreu seis meses depois do senhor e a sua gata, a Beatriz Isaura, viveu pelo menos até 2016, quando a minha mãe foi obrigada a dá-la por causa de um problema com uma vizinha que estava grávida.
Da mesma forma que o senhor foi o pai para alguns dos meus amigos, Deus me presenteou com alguns pais emprestados nesses últimos anos. Tenho certeza que teve dedo seu quando pessoas como o Ricardo Ferreira e o Perrottão entraram na minha vida. A sua ausência física fez com que eu criasse um carinho especial por pessoas mais velhas, pois sinto falta de ouvir histórias.
Mamãe e Tatiana estão ótimas, mas se quiserem, elas que contem as novidades pro senhor.
Pai, pensando bem, acho que o senhor já sabia de tudo que te contei agora, né?
Obrigado por ter cultivado em mim o amor que te manterá vivo até o fim da minha vida!
Dê um abraço forte na Tia Rosa, no Tio Áureo, no David, no Betão, no Sr. Ademir, no Carlão e em tantas outras pessoas importantes que estão aí com o senhor. 
Um grande beijo, Paizão, Wanderlaan ou Sr. Cotonete!
P.S: Fica tranquilo que ainda vou te dar um Cantharininho.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Só leve o necessário


O ano de 2018 vai ficar na minha memória como o período em que encerrei ciclos e me interiorizei. Olhar para si mesmo não é fácil, até porque nem todas as descobertas são agradáveis. Mas o que está dentro nos ajuda a entender o que está fora. Em fevereiro do ano passado, durante a despedida do meu melhor amigo que foi morar em São Paulo, saí numa foto sentado ao lado dele e aquela imagem me incomodou muito. Eu estava enorme, com 91 quilos, o maior peso que já tive até hoje. Mas não era só uma questão de aparência, eu sabia que aquele era o retrato de questões saúde e emocionais mal resolvidas. Era necessário ficar fora de cartaz, fechado para balanço até que compreendesse tudo o que estava acontecendo. A primeira medida foi viajar totalmente sozinho pela primeira vez na vida, mesmo estando namorando na época. Escolhi Curitiba, pois queria conhecer o Armazém Garagem, um bar que reúne duas das minhas principais paixões: rock e antigomobilismo. Fui sem planos para os 6 dias que em fiquei na cidade. Acordava, me arrumava e saía do hotel sem destino. Foi assim que conheci lugares incríveis e me apaixonei pela cidade. Tirando o “bom dia” para os funcionários do hotel e uma breve conversa com um casal de idosos na piscina, eu não falei com mais ninguém. Precisava de silêncio para me ouvir e me encontrar nas esquinas da cidade. Mesmo com a programação ‘freestyle’, visitei os principais pontos turísticos. De todos os lugares, o Parque Tanguá foi o que mais me marcou. Fiquei horas sentado olhando a queda d’água, um verdadeiro ritual de meditação. O primeiro dia desta viagem, 20 de fevereiro, marcou o dia em que abandonei o vício do café. Tomava em média seis copos da bebida por dia, o que só agrava a minha recém diagnosticada úlcera gástrica. A úlcera foi curada, mas um grave problema de refluxo ficou, atacando o meu esôfago com a acidez do estômago, o que prejudicou a minha voz durante boa parte deste ano. Foi a gota d’água, não dava pra aceitar que algo poderia ser evitado comprometesse a minha ferramenta de trabalho. Primeiro foi o café, depois o açúcar no achocolatado e a tão amada torta alemã que vende na lanchonete do trabalho.
Mas como disse no início, também existiam questões emocionais. De 2016 pra cá, quando chegou ao fim o meu relacionamento mais longo, eu tive mais 3 relacionamentos oficiais (conheceu família, amigos, colegas de trabalho e etc...) e um que não chegou a ser um namoro, mas durou alguns meses e foi tão relevante quanto os outros três. Em apenas dois anos, me envolvi emocionalmente com 4 pessoas. Todos esses relacionamentos com intervalos de no máximo 15 dias entre o fim do anterior e o começo do seguinte. É claro que nenhum deles poderia ter dado certo. O primeiro desses 4, foi bastante conturbado. Esgotei toda a minha energia emocional tentando provar que eu não era o homem mais desejado do universo e muito menos o mais infiel. Quando esse namoro, que durou apenas 8 meses, chegou ao fim, eu precisava de um tempo para me reconstruir o que foi levado pelo furacão. Foi nesse período em que tive a primeira crise grave de refluxo, ficando totalmente sem voz durante alguns dias. Porém, não fechei para balanço e em poucos dias a vida colocava outras pessoas especiais no meu caminho. Não sei se posso chamar de sorte, mas despertei o interesse de mulheres incríveis. Depois do primeiro encontro, eu sempre me questionava “por que não?”. Só que eu respondia apenas olhando pra outra pessoa e não pra mim mesmo. Convidava pra um segundo encontro e quando me dava conta, era um novo relacionamento. No entanto, eu ainda estava oco por dentro. Ofereci muitos sentimentos, como amizade, respeito e companheirismo, mas não conseguia retribuir o que recebia do coração alheio. O que poderia ter sido a minha sorte foi o azar das últimas mulheres que se envolveram comigo. Quando eu começava a reconsiderar a postura que tive no último relacionamento, já estava em outro. Não me dei a chance de pensar um pouco e depois de alguns dias/semanas, procurar a pessoa pra me desculpar e quem sabe, após reconhecer que precisava de um pouco de compreensão, tentar novamente. Porém, no último término, há quatro meses, ouvi uma frase que me impactou muito: “Renato, desejo que um dia você deixe de ser piscina rasa e vire mar”. Ela foi cirúrgica na definição, pois todo mundo que mergulhava de cabeça estava se machucando. Precisava voltar a transbordar amor, algo que eu fiz durante muito tempo, mas parecia ter esquecido. Foi aí que me toquei o quanto era cruel deixar pessoas se envolverem comigo sem estar preparado (ou com vontade) de pensar uma vida juntos novamente. Não tinha o direito de fazer outras pessoas pagarem pelo fracasso de um relacionamento anterior. Era o ápice do egoísmo. Setembro e outubro foram meses difíceis, pois me olhava no espelho e não tinha orgulho de quem eu via. Fiquei à flor da pele, tudo me atingia. A escrita continuou e mesmo não buscando conheci mulheres muito interessantes nos últimos meses, porém, fui honesto com elas e comigo mesmo, deixando claro que o máximo que tenho pra oferecer no momento é um jantar, um chopp ou a companhia numa roda de samba, sem a segunda vez. Agora acredito que apenas um encontro também pode ser incrível e se tornar uma lembrança que mereça ficar intacta. Assim, aos poucos, vou sentindo o meu coração voltar a bater.
Mas não apenas os últimos relacionamentos me fizeram querer recomeçar, o clima de ódio que envolveu a última eleição me afetou diretamente, principalmente quando eu via postagens de amigos nas redes socais. E não estou falando de eleitores do candidato A, B ou C. No geral, parece que todo mundo enlouqueceu e perdeu o respeito. Foi um período de desamor, que deixou resquícios ainda presentes. Os candidatos conseguiram despertar o pior das pessoas. Quando eu acessava o Facebook e via a foto de um pai fazendo arminha com a mão do filho de 3 anos, me dava vontade de chorar porque muitas dessas pessoas foram importantes na minha vida. Porém, não posso deixar que o ódio ande ao meu lado. Tomei uma atitude radical: excluí definitivamente o meu perfil do Facebook que existia há 9 anos e tinha contatos de pessoas de toda a minha trajetória. Em seguida, fiz o mesmo com a minha conta do Twitter. E por último, na semana passada, troquei o número do meu celular. Criar novas contas me deu o direito de filtrar as pessoas que são relevantes na minha vida atualmente. Seria mais traumático ter que apagar cada pessoa que não cabe mais no meu dia a dia. Criei um novo perfil no Facebook apenas para administrar as páginas e grupos dos quais sou moderador. Também fiz um novo Twitter apenas para seguir contas que me auxiliem no trabalho. Não era minha intenção desistir de pessoas, mas precisava deixar pra trás a maldade, o ódio e a negatividade. Estava me fazendo mal. Esse momento também foi propício pra que eu repensasse o meu senso de humor, sempre baseado em ironias ácidas. Meu humor é egoísta, pois a intenção sempre foi que apenas uma pessoa achasse graça. No caso, eu. Minha maior diversão sempre foi enviar ou responder mensagens de forma muito seca, saindo do óbvio e deixando o outro na dúvida se estou falando sério ou não. Enquanto estou gargalhando, a outra pessoa fica pensando mil coisas, tentando se explicar ou se desculpar pelo que não fez. Tá, eu sei que é um humor babaca, mas as pessoas mais próximas entendem e, às vezes, até se divertem também. Porém, nem sempre acontece. Até as pessoas que melhor me conhecem também ficam chateadas. Há algumas semanas, uma das pessoas mais importantes da minha vida me enviou duas imagens: antes e depois de estar maquiada para uma sessão de fotos para a empresa em que trabalha. Ela estava linda, o que todo mundo já devia ter falado, mas esperava ouvir isso de mim também. Porém, eu apenas respondi perguntando se ela estava fazendo um novo book de 15 anos. Ela me chamou de estúpido e ficou alguns dias sem falar comigo. Foi aí que percebi que meu humor espírito de porco estava passando dos limites, pois me divertia deixando as pessoas que eu mais gosto com raiva. Quando acontece com alguém que me conhece bem, depois de alguns dias, tudo volta ao normal e sou desagradável novamente. No entanto, quando ajo assim com alguém que acabou de me conhecer, provavelmente não terei a chance de provar que essa é a minha forma de brincar com quem eu gosto. Não é fácil explicar para uma namorada que ‘muito linda’ é uma ironia e que ‘muito mala’ é quase uma declaração de amor. Às vezes, consigo. Às vezes, não. Estou tentando me policiar, pois deve ser mais divertido rir junto.
Após os difíceis meses de setembro e outubro, em novembro, fiz a segunda viagem do ano sozinho: Foz do Iguaçu com passagens pela Argentina e Paraguai. Foi tão bacana quanto a de Curitiba. Também foi ‘freestyle’, sem compromisso com nada ou com ninguém. Porém no quinto e penúltimo dia, me permiti socializar com outras turistas durante a visita ao Templo Budista. Depois, fomos almoçar juntos e até falei meu nome verdadeiro, o que não fiz em Curitiba, quando tentaram puxar assunto comigo num bar. Voltei renovado de Foz.
Enquanto cuidava do emocional, estava também empenhado em ter uma saúde melhor. Além de abandonar o café, reduzi em 95% o consumo de refrigerante, passei a me alimentar seguindo orientações médicas e voltei pra academia. Resultado: no último dia de 2018, estava pesando 81 quilos, 10 a menos do que em  fevereiro, quando saí na foto que me incomodou. Mas foi muito além do que a questão da aparência, pois na última semana de 2018, a médica me liberou, após 6 anos de uso contínuo, dos remédios para controlar o colesterol e a tireoide, que tinham taxas perigosamente desreguladas desde 2014. Nos últimos anos, fui parar duas vezes na emergência de um hospital, durante a madrugada, achando que estava tendo um princípio de infarto. 
Apenas uma questão de saúde ainda não consegui resolver totalmente, que é o refluxo. Em Foz do Iguaçu, não respeitei o jejum de três horas antes de deitar. Encerrei todos os dias comendo nachos e outras guloseimas, sempre acompanhadas por alguns copos de Budweiser, num bar de comida mexicana. Acabei com o meu estômago e até agora não estou 100%, o que causa crises de tosse seca. Mais uma vez precisei tomar uma decisão radical e foi o que fiz: o réveillon marcou também o último dia em que consumi bebida alcoólica. Dependendo da ocasião, pretendo até abrir uma exceção para o vinho, mas cortei definitivamente a cerveja dos meus momentos de lazer.
Uma das músicas da minha vida é ‘Walk On ‘ do U2. Encerro este enorme texto com a minha parte preferida da canção:
“Tudo o que você produz
Tudo o que você faz
Tudo o que você constrói
Tudo o que você quebra
Tudo o que você mede
Tudo o que você sente
Tudo isso você pode deixar pra trás.”

Vamos amar e sempre buscar o melhor de nós mesmos em 2019!

domingo, 25 de novembro de 2018

É sempre amor, mesmo que acabe...

Você acredita em ex-amor? Eu não! Na verdade, até um desamor é amor, só que malsucedido. Parto pelo pressuposto que ninguém passa ileso por um amor. É sempre uma troca, deixamos um pouco de nós na outra pessoa na mesma medida que também recebemos dela. No meu caso, carrego comigo coisas bem específicas. Todas as pessoas relevantes que passaram pela minha vida deixaram pelo menos um aprendizado, um momento de gargalhada espontânea e brilho nos olhos, uma fala, uma canção, um filme, um perfume e um lugar. Essa é a parte do amor que fica intacta para posteridade. 

Pausa para a primeira canção do texto:


Essas coisas não vão te deixar, por mais que você queira, faça terapia, cultive ódio e tantas alternativas que não terão sucesso. Aprendi isso na adolescência, mas demorei a colocar em prática na minha vida. Na época, durante uma confissão, o saudoso padre Avelino Contini me disse: “Renato, enquanto não perdoar essa pessoa, você vai dormir, acordar, almoçar, estudar e ela estará sempre com você, pois não sairá do seu pensamento.” A ocasião em questão nem se tratava de um relacionamento amoroso, mas uma briga com o meu melhor amigo. O mesmo que anos depois, após o fim do meu primeiro namoro, me incentivou a fazer a “fogueira das vaidades”, que era simplesmente queimar todas as fotos (ainda não tinha câmera digital), cartões e presentes dados pela minha ex. Que besteira! Depois de mais de 15 anos, eu e minha primeira namorada somos amigos e, infelizmente, não temos mais nenhuma lembrança da época, mesmo que fosse para apenas darmos boas gargalhadas.
Desde então, namorei algumas vezes. É claro que, logo após o término, fica impossível manter qualquer tipo de contato. No entanto, depois de algum tempo, essa linha tênue fica menos arriscada para ambos. Um dos meus defeitos é o arrependimento tardio, pois costumo me deixar levar pela emoção, não pensando muito antes de falar e tomar decisões. Porém, em algum momento da vida, a voz da consciência fala alto e faço uma reflexão sobre determinada pessoa ou situação. Quando isso acontece, não me furto da responsabilidade de procurar a pessoa para pedir desculpa ou esclarecer fatos obscuros, mesmo que seja através de um e-mail quilométrico (minha especialidade). Nunca espero resposta, pois na verdade, acredito que estou fazendo um acerto de contas comigo mesmo.
Em outubro de 2014, a Ruth Manus, colunista do Estadão, publicou o texto “Oi ex, como vai?”.

Pausa para ler o texto da Ruth: Oi ex, como vai? Ruth Manus

Leu? Muito bom, né!?
Até hoje esse texto me inspira. Desde então, escolhi ficar com a lembrança boa. Não dá pra sentir raiva toda vez que ouço uma música, sinto um perfume, passo por um bar, falo de uma viagem, acesso uma pasta de fotos no computador, uso uma expressão ou até mesmo quando o Uber me sugere um endereço de destino. Prefiro sorrir de canto de boca.

Pausa para ouvir a música de onde tirei o título deste texto:


Hoje em dia, faço bolinhas com as meias antes de guardá-las na gaveta, como beterraba e cenoura com frequência, preparo Nescau sem açúcar, virei fã de Snow Patrol, superei o trauma de vinho por causa de um porre na adolescência e tantas outras coisas que foram deixadas em mim e fazem parte do meu dia a dia.
A mágoa drena a vida aos poucos, pois como cantam Fernanda Abreu e Herbert Vianna na canção 'Um Amor, Um Lugar': "E se não for, valeu! E se já for, adeus!"


domingo, 21 de outubro de 2018

O final fica por sua conta...

Neste domingo, fui ao terceiro enterro no prazo de 10 dias, pois três grandes amigos perderam entes muito próximos. O primeiro perdeu o tio/padrinho num acidente de carro, após perder o controle do veículo e bater numa árvore. O segundo perdeu a avó, a pessoa mais importante da vida dele. Ela disse que não estava sentindo-se bem, deitou no colo de uma das filhas e deu o suspiro derradeiro. O terceiro e último, meu amigo desde o berço, passou horas procurando o pai, que havia saído antes do almoço para fazer compras. Ele só o encontrou às 21h30, no IML. Passou mal voltando pra casa e o coração não resistiu.
Três pessoas que não tiveram a chance de se despedir, de dar um beijo, de abraçar forte... Três pessoas que acordaram pensando que seria só mais um dia, não o último.
Essa é a vida, bela, intensa e compartilhável, porém, fugaz.
Os três partiram sem levar nada palpável daqui, mas deixaram riquezas incalculáveis dentro dos meus amigos e dos demais entes queridos.
Este até poderia ser mais um texto enorme que escrevo, mas acho que neste caso, a minha opinião/reflexão não tem valor algum pra outra pessoa. É só uma questão de interpretar a vida. Deixo essa publicação inacabada para que você, que dedica alguns minutos aos meus devaneios, conclua da forma que quiser. Se refletir, aja, beije, abrace e ame! Caso contrário, tenha um bom dia amanhã, pois será apenas mais um.

P.S.: Enquanto escrevia, essa música do síndico veio-me à cabeça:

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Decidi ter um quase cinquentão


O meu Fusca 1971 completou 1 ano! Como assim? Vou explicar, mas preciso voltar quase três décadas. No início da década de 1990, um vizinho comprou um lindo Maverick azul. Fiquei encantado com o design agressivo e com o ronco assustador do modelo. Era um autêntico carro de vilão de filme americano. Porém, na década de 1990, um carro fabricado na década de 1970 era considerado velho, não antigo. Mas de todos os carros da vila onde cresci, era o Maverick que fazia os meus olhos brilharem.
Pausa para uma queixa: quase 30 anos depois, até hoje não andei em um Maverick. Nem o vizinho e nem o seu filho, que é um grande amigo, me deram essa alegria.
Continuando... Saí da infância, passei pela adolescência e cheguei à fase adulta ainda apaixonado pelo Maverick azul. Em 2003, o meu vizinho ganhou de um de seus filhos outro Maverick, completamente original, o que não era o caso do outro. Então, ele resolveu vender o tão cobiçado Maverick azul. Na época, a cultura do antigomobilismo com carros da década de 1970 ainda engatinhava, o que fez com o valor pedido fosse muito baixo. Coincidentemente, naquela ocasião, aos 19 anos de idade, eu compraria o meu primeiro carro.  A ideia inicial era comprar um carro 0km básico ou um semi-novo com alguns acessórios. Mas quando fiquei sabendo que o Maverick estava à venda, mudei completamente os planos: compraria um carro de 5 anos de uso para o dia a dia e sobraria a grana para comprar o Maverick. Mesmo sendo com o meu dinheiro, consultei minha família. É claro que todo mundo achou loucura. Um dos argumentos era que eu só tinha uma vaga na garagem de casa. Eles venceram, comprei um carro novo e desisti do Maverick. Logo depois, o carro dos meus sonhos foi vendido. Nesses últimos 15 anos, o Maverick passou a ser um dos carros da década de 1970 mais cobiçados pelos antigomobilistas. Se eu o tivesse comprado em 2003, hoje, ele valeria pelo menos 10 vezes mais do que teria pagado na época. Esse é um dos maiores arrependimentos da minha vida.
Depois disso, quando pensava em ter um carro antigo, só cogitava um Maverick. Nos anos seguintes, tive alguns carros novos ou semi-novos. Porém, em 2014, o meu melhor amigo comprou um Fusca, modelo que é pra ele o que o Maverick é pra mim. Comecei a ir com eles a encontros de carros antigos, o que resgatou duas lembranças da minha infância: as histórias do Fusca laranjinha, o primeiro carro do meu pai, e o manual do proprietário do Fusca verde folha 1970 do meu padrinho, que foi uma das primeiras leituras da minha vida.  Por causa de um problema de visão, meu pai teve que parar de dirigir antes da minha vinda ao mundo. Meu padrinho também já não tinha mais o seu besouro, mas nunca soube o motivo para ter guardado o manual. Como na época, já não era mais possível comprar um bom Maverick por menos de R$ 40 mil (atualmente um exemplar do modelo com alto índice de originalidade e conservação já está perto dos R$ 200 mil), resolvi comprar num Fusca como meu hobby. Continuaria tendo um carro moderno, mas teria um antigo para acompanhar o meu melhor amigo nas exposições.
Após algumas semanas de procura em sites de venda, achei um 1971 vermelho cereja, único dono, com manual do proprietário, nota fiscal de fábrica e alto índice de originalidade. Era um verdadeiro tesouro. Comprei sem pensar duas vezes. O carro era um achado, no entanto, precisava de uma restauração total, pois só havia sido pintado uma vez em 43 anos e todo o interior era original de fábrica (bancos, forros e tecidos). 

No dia seguinte à compra, já o levei para a oficina do Chicão, meu lanterneiro de confiança. A previsão era que ficaria pronto em dois meses. Porém, Chicão teve grandes problemas de saúde relacionados à diabetes e ele não deixava nenhum funcionário mexer no meu carro. Era um serviço dele. Após 2 anos de muitas desculpas e prazos não cumpridos, Chicão morreu. O carro estava completamente desmontado em um canto da oficina. Cheguei a pensar em desistir do projeto e perder os quase R$ 7 mil reais investidos até então, que representavam a compra do carro e o sinal dos serviços de lanternagem e pintura. Mas não tive coragem, pois o histórico do carro era raríssimo. Não encontraria outro igual tão fácil. Em julho de 2016, tirei o carro da oficina do saudoso Chicão e levei para uma a 100 metros da minha casa. 

Na nova oficina, os trabalhos de lanternagem e pintura duraram 5 meses. Novamente, a vaga na garagem voltou a ser um empecilho. Precisava ter o Fusca por perto para providenciar o resto dos serviços que faltavam (capotaria, montagem, elétrica, mecânica...). 

Então tomei uma decisão radical: vendi o meu carro moderno, que chegava a ficar até um mês sem uso, pois sou bem atendido pelo transporte publico no trajeto casa x trabalho. Abri mão de ar condicionado, direção hidráulica, vidro elétrico, trava elétrica, air bag, piloto automático e outros itens de conforto.
A meta era deixar o Fusca exatamente como tivesse acabado de sair da linha de produção. Foi uma verdadeira torneira aberta de tempo e dinheiro. Sempre faltava algum detalhe. Comprei peças pelo Mercado Livre de quase todos os estados da federação. Além disso, cheguei a parar dentro de uma das favelas mais perigosas do Rio atrás de um botão do painel. Com a ajuda de vídeos do YouTube, restaurei em casa algumas peças de acabamento. Quando eu não estava trabalhando, estava na garagem mexendo no Fusca. Não sei como os meus dedos não caíram com a quantidade de produtos químicos que eu utilizava para tentar tirar as manchas de tinta e graxa das unhas.
Em outubro de 2017, finalmente, ele estava do jeito que eu queria. O investimento foi de pelo menos 30% a mais do seu valor de mercado após a restauração. Deixou de ser um hobby e virou um casamento, para nunca pensar em separação. 

Nesses últimos doze meses, juntos, escrevemos 6.500 quilômetros de histórias, viajamos para outro estado e fizemos ótimas amizades. Todo o prazer em dirigir que eu havia perdido, recuperei com intensidade. Aprendi o que era a tal “Fuscaterapia” que o meu melhor amigo falava. Quando o dia não está legal, basta sair pra dar uma volta pela cidade que volto revigorado pra casa. Aos finais de semana, quando a noite está bonita, costumo sair para comer um cachorro-quente na Praia de São Francisco, em Niterói, a 43 quilômetros da minha casa. Na Ponte Rio-Niterói, me sinto num túnel do tempo que me leva direto para a década de 1970.
Outro ponto positivo foi que me reciclei como motorista, pois a condução é totalmente diferente. Pra início de conversa, ele não tem retrovisor do lado direito. Ironicamente, esses doze meses também representam o maior período sem me envolver em um acidente de trânsito, desde o meu primeiro carro. Quem me conhece, sabe que o meu histórico de acidentes é extenso. Se juntar todos os Brats que tenho, a quantidade de folhas não ficará muito atrás da Bíblia Sagrada. Algumas pessoas até achavam que era um luxo trocar de carro a cada dois anos. Mas na verdade, elas não compreendiam que esse era o prazo máximo que um veículo durava na minha mão.
É impressionante como o Fusca mexe com a memória afetiva das pessoas, de todas as idades e classes sociais. Quase sempre que saio com ele, alguém para ao lado para elogiar, perguntar o ano de fabricação ou brincar perguntando por quanto eu venderia. 

Só no último mês, dois casos muito bacanas aconteceram. Estacionei rapidamente na porta de uma escola primária. Quando estava trancando a porta, se aproximou uma menina, de cerca de 8 anos, acompanhada pela mãe. Ela já chegou dizendo: “Mãe, é igual o que tenho em casa!”. Comecei a rir e a mãe me explicou que a menina é apaixonada por Fuscas e tem uma miniatura no quarto. Perguntei se ela já tinha entrado em um, a mãe respondeu que não. Então abri a porta e a mãe fez verdadeiro um book dela dentro do carro. Na que hora estava saindo, ela abraçou o volante como fosse um grande urso de pelúcia. Ganhei o dia!
Após alguns dias, estacionei o carro numa área quase deserta do shopping (antigomobilista tem pavor de parar perto de outros carros por causa das portas assassinas). Quando estava indo embora, o shopping já estava mais cheio, e ao lado do Fusca tinha um Renault Logan parado. Depois percebi que além do carro, tinha um senhor em pé, com tom de contemplação. Quando abri a porta, ele olhou pra mim e disse: “Tempo bom! Que saudade eu tenho desse carrinho!”. Batemos um papo por alguns minutos (algumas crianças até me comovem, mas idosos são o meu ponto fraco). Só não conversamos mais porque a esposa dele estava dentro do Logan esperando o fim dos saudosismos para ir embora. O Fusca é uma verdadeira máquina de arrancar sorrisos! Todo mundo tem uma história pra contar envolvendo este modelo da VW.
O meu Fusca foi utilizado nas gravações da nova versão do filme "O Beijo no Asfalto", do Murilo Benício. A estreia dele nas telefonas foi ao lado de Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos e Stenio Garcia. Nada mau para um senhor que quase foi aposentado compulsoriamente. 
Mas o que me deixou feliz de verdade, foi ele ter sido usado nas fotos do casamento dos meus afilhados Alyne e Yuri.

Mas não foram só vitórias. Como ele ficou praticamente 3 anos parado, alguns problemas mecânicos foram surgindo conforme foi voltando a rodar. O pior de todos foi quando a roda traseira esquerda se soltou dentro do túnel Noel Rosa. Isso mesmo, no Noel Rosa, o túnel mais assustador do Rio de Janeiro. Outro problema que me deu muita dor de cabeça foi o entupimento da linha de combustível. Quando eu pisava fundo no acelerador, o carburador tentava puxar mais combustível, só que não chegava a quantidade suficiente, aí o carro começava a engasgar até morrer. Mas meu carma com túneis ainda não havia acabado. Por causa desse problema, enguicei no túnel da Covanca, na Linha Amarela e no Túnel Marcello Alencar. Troquei várias peças até descobrir que bastava limpar o canal por onde passava a gasolina. A última vez que ele me deixou na mão, foi em junho, quando estava indo passar um fim de semana em Visconde de Mauá. Tinha acabado de conseguir um posto para abastecer, pois foi no dia que acabou a greve dos caminhoneiros. Saí do posto e parei num sinal, acionei a embreagem e o pedal foi até o final, sem engatar a marcha. O disco de embreagem tinha ido pro espaço. No fim das contas, um amigo antigomobilista me ofereceu um de seus carros, o que salvou o meu fim de semana.
Depois da conclusão da restauração, ficou faltando apenas uma coisa: um nome! Como ele foi fabricado em 1971, ano do nascimento do meu maior ídolo no automobilismo, o meu Fusca passou a ser chamado de Jacques Villeneuve, ou apenas Villeneuve para os mais íntimos.

O grande problema é que após o primeiro carro antigo, é difícil saber a hora de parar. Daqui a alguns dias, fica pronto o Nelson Piquet, um Chevette 1987, com o raro interior marrom tabaco e apenas 80 mil quilômetros rodados, comprado por mim há dois meses. Como ele ainda estava com a pintura original, levei para dar um banho de tinta.
A grande pergunta que me faço novamente é: onde vou guardá-lo? Se tiver uma vaga sobrando aí na sua casa, me avisa!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A solução é a despedida

Sou fruto de miscigenação curiosa. Nasci no Rio de Janeiro, mas meu saudoso pai era filho de uma capixaba com um italiano. Já a minha mãe é paraibana. Por causa dessa improvável árvore genealógica, cresci sem ter contato com avós, tios, primos e demais familiares. Mas desde pequeno tive a compensação, e que compensação! Tenho os melhores amigos do mundo e suas famílias acabam sendo minhas também! Mas há cerca de 10 anos, se iniciou um fenômeno que parece não ter fim: a maior parte dos meus amigos de longa data desistiu do Rio de Janeiro.
Começou no início de 2009, quando um grande amigo, que fiz na época de coordenação de Crisma, aceitou uma boa proposta de emprego e foi morar em Guarulhos. Nossa amizade foi muito além da igreja. Durante o auge da nossa adolescência, ele foi meu principal companheiro de aventuras. Foi com ele que fundei a ‘Turbinol’, a banda que só fez um show. Em 2011, fui a São Paulo presenciar o casamento dele. Atualmente, tem dois filhos com a esposa.
Em 2010, foi a vez de um casal muito próximo abandonar a casa que tinha acabado de reformar no Rio para viver a paz da cidade de Bananal, em São Paulo. Atualmente, ele que é geógrafo, vive tranquilamente com a esposa e o filho, e ainda tem tempo para se engajar em causas ambientais da região.
Dois anos depois, foram duas pancadas! Na semana do meu aniversário, o amigo que é o meu irmão mais velho, conselheiro e refúgio nos momentos mais difíceis. Ele deixou uma ascendente carreira no Rio de Janeiro, após aceitar um convite para trabalhar no Distrito Federal. Hoje em dia, é uma referência em uma determinada área da saúde mental. Ainda em 2012, outro casal de amigos decidiu que aqui não era mais um bom lugar. Os dois abandonaram empregos em grandes empresas para viver em Londres. Há poucas semanas, nasceu a primeira filha deles, uma linda princesa londrina!
Em 2014, outro grande amigo muito importante na minha história de vida, e que durante a década de 1990 era o meu ídolo, pois foi um dos artistas mais influentes do cenário underground carioca. Deixou a cidade que um dia viu sua foto estampada nos cadernos de cultura dos jornais para montar uma pousada na pacata cidade de Cunha, em São Paulo. Além de cuidar da bela pousada com temática musical, seu hobby é fazer apresentações em outros estabelecimentos, tocando e cantando canções de artistas que o influenciaram.
Em 2015, a mulher que foi a minha primeira grande amiga. Depois de passar por um sombrio período de depressão, ela desconfiou que a sua cura poderia estar no aeroporto. Deixou toda a tristeza pra trás e foi ser feliz na Colômbia. Nos falamos há alguns dias. Ela está mais feliz do que nunca, prosperando profissionalmente e já preparando o segundo passo da sua busca pela felicidade: Europa.
No ano de 2016, foi a vez da minha então namorada. Ela é natural de Jacareí, uma cidade do interior de São Paulo. Após 7 anos morando no Rio de Janeiro, não aguentou mais. Após ter sintomas de síndrome do pânico, descobriu durante alguns dias em sua terra natal que a cidade maravilhosa estava afetando a sua saúde.
No ano passado, mais um casal, do qual sou padrinho de casamento. Ele, um dos engenheiros de telecomunicações mais requisitados na implementação da telefonia móvel no país, não conseguia mais usufruir dos bens que conquistou com muito suor. Apaixonado por motos esportivas, após ser rendido por bandidos na porta de casa, não tinha mais tranquilidade para curtir o seu hobby. Vendeu tudo e foi morar com a esposa no Texas.
Mas 2018 já começou com uma grande surpresa. Desta vez, é o meu melhor amigo, que há mais de 20 anos é o meu irmão de alma. O cara com quem no início da adolescência dividi composições e as paixões por música e automobilismo. Ele é a pessoa com quem mais briguei na vida, por isso acredito que também seja a que mais me conhece. Quando voltamos a nos falar, depois de um período de 3 anos brigados, nós dois estávamos em processo de irmos morar com nossas companheiras, mas não sabíamos que as duas tinham o mesmo nome. Só que a dele, com quem está casado e me deu um sobrinho, nasceu exatamente no mesmo dia que eu: 10/03/1984.
No grupo de whatsapp dos amigos de infância, ele sempre fala: “eu já sabia que o Renato daria essa resposta”. Quando achamos que o outro não está bem, não mandamos mensagem perguntando se está tudo certo. Telefonamos logo um pro outro, pois o “alô” já responde a nossa dúvida.
Porém, a história se repete: ele vai trocar um ótimo emprego numa multinacional para proporcionar mais qualidade de vida à família, na cidade de São Carlos, em São Paulo. Hoje, coube a mim o papel de marcar a despedida com os amigos de infância. Logo depois, coincidentemente, a rádio que eu estava ouvindo tocou a música ‘Big Empty’, do Stone Temple Pilots, nossa segunda banda favorita, pois a primeira dele é o Pearl Jam e a minha é o Soundgarden. Na hora, mandei pra ele o print do aplicativo da rádio com o nome da música que estava tocando. E foi assim a minha quarta-feira de cinzas, um verdadeiro ‘Big Empty’ ou ‘Grande Vazio’ em português.
Há um senso comum entre todos os meus amigos que tiveram coragem de partir: nenhum deles cogita a possibilidade de voltar a morar no Rio de Janeiro.



Minha profissão me faz enxergar tudo com olhar crítico. A cada dia fico mais desanimado com o que presencio no Rio de Janeiro. Não são apenas os políticos, basta ter um evento como o carnaval, para perceber que uma parte da população merece os governantes que tem. O rio não dá mais certo.
Desde 2009, quando meu primeiro amigo saiu do Rio, fui vítima de um sequestro relâmpago, depois tive o meu carro e pertences roubados enquanto estacionava num dos pontos mais movimentados da noite carioca. E por último, em janeiro do ano passado, fui assaltado e agredido a caminho do trabalho, às 04 h da manhã. Além disso, também sofri dois furtos durante a cobertura de grandes eventos. Já contei alguns desses casos aqui no blog.
Enquanto escrevia este texto, um amigo postou no Facebook que estava acontecendo mais um arrastão no Túnel Santa Bárbara, que é uma das vias mais importantes da cidade.
Como as minhas amizades mais recentes ainda estão por aqui, seguimos confraternizando em nossas casas, onde nos sentimos um pouco mais seguros e menos afetados pela desordem e a falta de educação de uma parte da população.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O que te envelhece?

Na última sexta-feira, uma mensagem escrita por um motorista de ônibus me fez refletir bastante. Uma folha de caderno colada no interior do coletivo divulgava a seguinte mensagem: "O corpo envelhece sem a sua permissão. Já a alma, só envelhece se você permitir. Faça cada dia da sua vida valer a pena."

No dia anterior, havia citado alguns nomes durante uma conversa. Alguns deles me causaram um certo desconforto, seja por causa de mágoa, frustração, decepção ou perdão. Quando entrei no ônibus da linha 422 no dia seguinte, e li a mensagem do motorista Ivan Cabral, fiquei buscando respostas sobre o que envelhece a minha alma. Cheguei à conclusão que o principal é o perdão (ou a falta dele), mas aquele tipo que é ainda mais difícil: perdoar a si mesmo.
É muito fácil encher a boca para falar mal de alguém, dizer que fulano te sacaneou, etc... Mas será que sempre pensamos que em qualquer relação (familiar, amorosa, de amizade, profissional...) somos 50%? Às vezes, basta uma rápida autoavaliação de conduta para perceber o que despertou o pior do outro.
A partir dessa reflexão, você tem duas opções: não fazer nada e continuar carregando essas sombras ou ir atrás da verdadeira paz de espírito, pois ninguém será plenamente feliz enquanto tiver tempo e energia para gastar com sentimentos ruins.
Talvez você não consiga sanar todas as suas dívidas, pois como disse anteriormente, você é apenas 50% de qualquer relação e cada um só oferece o que tem. Porém, tentar já é fazer a vida valer a pena!
PS: Obrigado pela mensagem, Ivan! Sua atitude faz a diferença no meio desse caos! 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

C..., é o meu chapéu!

"Caralho, é o meu chapéu!"
Me desculpem pelo palavrão, mas não consegui pensar em outra frase para começar este texto.
Esta foi a mais pura expressão do que senti no dia 12 de dezembro de 2007. Segue o vídeo:

Eu era um pré-adolescente em meados da década de 1990, mas já sabia qual gênero musical me acompanharia para o resto da vida. E o Chris Cornell, através do Soundgarden, foi a personificação da minha paixão pela música. Da mesma forma e na mesma época, surgiram as outras duas paixões que carrego intensamente até hoje: automobilismo, personificada na figura do piloto canadense Jacques Villeneuve e o rádio, representada pelo 102,9 FM da extinta Rádio Cidade e do então jovem locutor Rhoodes Lima, que atualmente é o maior narrador de MMA do país, e sempre foi a minha principal referência profissional. Essas foram as minhas paixões de adolescente. Que me perdoem as namoradinhas da época (admito que não foram muitas). Na verdade, minha vida amorosa só ficou mais agitada quando a Rádio Cidade chegou ao fim pela primeira vez, o que acabou coincidindo com o ano da aposentadoria do Jacques Villeneuve. Foi aí que começou a sobrar tempo aos fins de semana para outras coisas, como namorar. Já na fase adulta, eu sempre falava para as minhas namoradas: "Você é prioridade até o assunto chegar ao Chris Cornell ou ao Jacques Villeneuve". Tanto que nesta manhã, uma das primeiras mensagens que recebi sobre a morte do Chris Cornell, foi da minha ex-esposa.
Pouco tempo após eu descobrir a banda, que para mim é a melhor da história, o Soundgarden anunciou o fim das atividades, no dia 09 de abril de 1997 (que também é o dia do aniversário do Jacques Villeneuve). Achei que era o sepultamento do sonho de assistir ao incrível quarteto de Seattle ao vivo, pois o grupo ainda não havia tocado no Brasil.
Mas não demorou até o Cornell lançar um bem sucedido disco solo. Mas a grande surpresa veio mesmo em 2002, quando ele montou o Audioslave com ex-integrantes do Rage Against The Machine. Continuei acompanhando, comprando discos, mas sem o mesmo entusiasmo que tinha na época do Soundgarden. Em apenas cinco anos, a banda lançou 3 discos. Após o fim do Audioslave, em 2007, Chris Cornell saiu em turnê cantando músicas da carreira solo, do Soundgarden, do Temple Of The Dog e do Audioslave. E foi nesta turnê que Cornell desembarcou pela primeira vez em terras tupiniquins. Acompanhado pelos excelentes músicos Peter Thorn (Guitarra), Yogi Lonich (Guitarra), Corey Mc Cormick (Baixo) e Jason Sutter (Bateria), Cornell passou a limpo os seus 25 anos de carreira, no palco do Citibank Hall. Eu não poderia estar em outro lugar que não fosse a primeira fila. A minha principal identidade visual na adolescência, era a utilização de chapéus australianos. Eu tinha uma coleção, de várias cores. Como no início dos anos 2000, eu participei do cenário da música independente carioca na produção de shows do "Mandril" e na apresentação de boa parte dos shows das 3 primeiras edições da coletânea "Tributo ao Inédito", os conhecidos me encontravam nos shows por causa do chapéu. Então, no dia 12 de dezembro de 2007, resolvi tirar do fundo da gaveta o chapéu vermelho, que já estava aposentado há alguns anos. Percebendo o meu estado de êxtase (ou total descontrole), o Cornell algumas vezes veio em minha direção cantando, me encarando a poucos centímetros de distância. Até que no meio do show, resolvi jogar o meu chapéu no palco (nunca entenderei o motivo). Ele pegou o chapéu, pendurou no pedestal e começou a cantar a música "Be Yourself". Após o fim da canção, ele me devolveu o chapéu. Para completa compreensão do que foi este momento, que inspirou o título desta publicação, é necessário que você assista o vídeo do início do texto.
Porém, minha história com Chris Cornell não parou por aí. No final de 2009, ele anunciou a volta do Soundgarden e em 2012, a banda lançou um disco com músicas inéditas, o que não acontecia desde 1996. Em 2013, nos encontramos novamente. Desta vez, num formato mais intimista, em um show acústico no Vivo Rio. E finalmente em 2014, realizei um dos maiores sonhos da minha vida, que era assistir a um show do Soundgarden. Essas experiências foram detalhadamente contadas em outras publicações aqui do blog. Para quem quiser saber, seguem os links:




Peço licença para repetir apenas um trecho do texto que publiquei em 2013, pois é uma das histórias mais lindas que já tomei conhecimento:

"A minha admiração pelo Chris Cornell não é apenas por considerá-lo o melhor cantor da história do rock, vocalista da minha banda preferida ou por ser o músico mais influente do movimento grunge (essa afirmação está explícita no documentário Peal Jam Twenty). Em 2009, o Chris teve a atitude mais comovente que já vi por parte de um artista. Segue a notícia  publicada no site Cifra Club, no dia 21 de abril de 2009:
"Chris Cornell disponibilizou para download a música , feita em parceria com Rory de La Rosa, um fã do cantor.
De la Rosa perdeu a filha Ainslee, que tinha seis anos, vítima de câncer no ano passado. Pouco depois, ele foi diagnosticado com a mesma doença.
O fã quis entrar em contato com o cantor para dizer como a música de Cornell havia sido importante em sua vida e na ligação que ele tinha com sua filha.
O cantor se comoveu com a história e respondeu a mensagem. A correspondência dos dois resultou em um poema escrito por Rory de la Rosa que acabou transformado em uma canção.
I Promise it’s Not Goodbye pode ser baixada no site oficial do cantor gratuitamente. Na página há também um link para quem quiser fazer doações a Rory de la Rosa e sua família em memória de Ainslee e para ajudar com as contas do tratamento médico. "
As fotos do vídeo são da pequena Ainslee.

Já assisti este vídeo algumas vezes e nunca consegui chegar ao final sem estar com os olhos marejados."

Diferente do que acontecia anteriormente, na manhã deste 18 de maio de 2017, chorei mais uma vez ouvindo a canção, mas o motivo foi outro.
Depois de uma longa e turbulenta noite de trabalho, acordei cedo para saber se o Michel Temer já havia renunciado. Mas em meu celular, já estava a mensagem de um grande amigo informando que uma parte importante da minha história havia morrido. Foi apenas a primeira de muitas mensagens. Todas as pessoas disseram que foi impossível não lembrar de mim quando souberam da notícia.
E o chapéu? Eu sempre fazia a estúpida brincadeira dizendo que quando o Cornell morresse, ele ia valer um bom dinheiro. Não poderia imaginar que esse dia chegaria tão precocemente. E é claro que não há dinheiro no mundo que pague a lembrança de um dos momentos mais incríveis da minha vida.

Me esforcei para este texto não soar fúnebre, mesmo estando com o coração devastado, pois o Cornell me ofereceu a sua arte, que sempre foi sinônimo de felicidade, euforia e boas lembranças.
Obrigado por ter feito minha vida mais feliz!
Descanse em paz, cara!


I promise it's not goodbye!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O show tem que continuar...

Hoje, desativei o alarme do celular que me despertava às 02h50, desde o dia 1º de abril de 2016. Algumas vezes, parecia que ele tocava antes mesmo de eu ter conseguido dormir, e talvez isso até tenha acontecido. Mas nunca perdi a hora, nunca atrasei durante este período. Qualquer pessoa que me conheça minimamente, vai duvidar que não atrasei no último ano, mas é verdade. A responsabilidade de estar produzindo o principal programa do rádio brasileiro corrigiu até um dos meus defeitos crônicos. Já até tentei achar explicações patológicas para os meus atrasos, mas nunca consegui convencer aqueles que já me esperaram até por horas em compromissos marcados por mim. Neste período, trabalhei com o maior comunicador de rádio do Brasil, mas esse Antonio Carlos todo mundo conhece. Porém, tive a oportunidade de conhecer o profissional por trás do microfone. E com esse aprendi muito! Ele nunca faltou e nem chegou atrasado. Não dorme tarde e usa 8 despertadores em volta da cama, para não correr o risco do "cochilo de só mais 5 minutinhos" que sempre acaba de forma trágica. Aprendi como se faz um programa de rádio totalmente dedicado ao ouvinte, sem que o gosto pessoal do comunicador interfira no conteúdo. Nunca ouvi o Antonio Carlos falar "o meu programa".  Também aprendi o que é uma equipe de verdade, daquelas que são imbatíveis, tipo a seleção brasileira da Copa de 1970. Mas para dar certo, todos têm que desempenhar as suas funções com perfeição.
Se você acha que sou uma pessoa bacana, é porque não trabalha comigo. Quando a luz vermelha "no ar" acende no estúdio, me transformo no cara mais perfeccionista e sério (chato) do planeta. Já me aborreci com bons amigos que não me levaram a sério enquanto eu produzia um programa. Se algo dá errado, minha coluna começa a travar e a cabeça a doer. Como não gosto de me sentir assim, só tenho a opção de fazer o melhor possível, mesmo que isso signifique regravar a mesma reportagem 8 vezes, até achar que tirei o melhor de mim. Acredito que a seriedade (até exagerada) com o trabalho tenha sido responsável pelo respeito que o Antonio Carlos demonstrou ter por mim, desde quando cobri as férias do Gelcio Cunha pela primeira vez, em janeiro do ano passado. Não sou amigo pessoal do Antonio Carlos, por isso me limito a falar dele apenas como profissional. Mas pelo pouco que sei, o caminho que ele percorreu até se tornar o radialista mais bem sucedido do país, daria um belo livro. Como profissional, ainda não conheci e provavelmente não conhecerei alguém mais disciplinado e focado no trabalho.

No entanto, admito que no início não achava que seria assim. Fiz jornalismo acreditando no dever cívico da profissão. Por isso, sempre quis ser repórter, prestar serviço, denunciar as mazelas da nossa sociedade, ser a "voz do outro que há dentro de mim", como canta o Frejat num trecho da música 'Política Voz' do Barão Vermelho. Não é a toa que escolhi essa música para tocar na minha colação de grau. Vinte dias antes de assumir a produção do 'Show do Antonio Carlos', estreei na programação da Rádio Globo o quadro 'Conta Pra Gente'. Era o resgate da essência do trabalho construído pelos grandes repórteres que passaram pelo Amarelinho da Globo, como Gelcio Cunha, Robson Aldir e Alberto Brandão. Em apenas 3 semanas, resolvemos os problemas de muitas pessoas, chorei dentro do Amarelinho após entrevistar uma senhora que havia perdido tudo por causa de uma forte chuva e bati boca com um prefeito da Baixada Fluminense que tentou insinuar que a minha denúncia não era verdadeira. Estava no auge do meu sonho de estudante. Quando soube que abandonaria o quadro para ser produtor, não pensei duas vezes: fui à sala do diretor para comunicar que pediria demissão. Além do diretor, estava na sala também o meu coordenador. Os dois ficaram surpresos e tiveram a paciência necessária para me fazerem reconhecer que estava sendo impulsivo e imaturo. Sou grato aos dois por isso. Achei que era o fim da minha carreira como repórter. Mas, na verdade, era apenas um recomeço na forma de fazer jornalismo e prestar serviço. Em poucas semanas, percebi que assumir a produção do programa nº 1 do rádio brasileiro era uma honra, daquelas que merecem destaque no currículo. Mesmo sendo fã e ouvinte do Antonio Carlos, nunca me imaginei trabalhando com ele. Numa mesma edição do programa, eu gargalhava até doer os músculos da face brincando com a Juju e o Gelcio, mas também me emocionava com as histórias contadas no quadro 'As canções do Rei e as histórias de cada um'.
Já que o programa acabou, vou fazer uma confissão: enviei uma carta para a produção do programa me passando por um ouvinte, pois queria me despedir de alguém especial no quadro 'As canções do Rei...'. Toda a história foi real, apenas os nomes não eram verdadeiros. A responsável por esse quadro era a Aldenora Santos, a Pudica. Ela recebia as cartas e e-mails dos ouvintes e passava as histórias para linguagem radiofônica. O mais engraçado foi ela me falando "Cantharino, você leu a história desse ouvinte? Que emocionante!". O único que soube na época que era a história da minha vida foi o Antonio Marcos Pires, o Toninho Bondade, que atualmente é um dos meus melhores amigos. Não comentei com ninguém que faria isso e utilizei nomes que só faziam sentido para mim e para a pessoa. Mas surpreendentemente, logo após o fim do quadro, recebi a seguinte mensagem de um amigo de infância que era ouvinte do programa: "Bela homenagem, amigo!"
(Pausa para ouvir novamente a gravação)
Na mesma época, o Gelcio Cunha me provou que é uma das pessoas com o coração mais belo que habitam este mundo. Dos integrantes do programa, sempre fui o primeiro a chegar à rádio. Um dia, o Gelcio chegou e não respondi o seu "bom dia" com a mesma alegria de sempre. Mesmo enrolado com a pauta das entrevistas (ele também é a pessoa mais enrolada que eu conheço), me chamou na mesa dele e perguntou o que estava acontecendo. Respondi qual era o motivo da minha tristeza. E quando menos eu esperava, ele me abraçou forte e começou a chorar. Durante uma semana, ele fez questão de ir tomar café da manhã comigo depois do programa, no bar ao lado da rádio. Admiro muito a Juçara, a Aldenora e a Zora, elas são as melhores no que fazem, mas nunca fomos muito próximos.
A partir da minha entrada na equipe, começamos a fazer reuniões de pauta após o programa, para decidirmos os temas e entrevistados do programa seguinte. Participava também da reunião a minha amiga e chefe Heloisa Paladino. Era uma verdadeira terapia! A gente ria até perder o ar com o Antonio Carlos contando histórias sobre seus quase 60 anos profissão. A cada reunião, ele nos enriquecia de conhecimento sobre a história dos meios de comunicações com seus heróis e vilões.
Deixei a parte mais importante para o final: os ouvintes! Os ouvintes do 'Show do Antonio Carlos' são diferentes, eles são amorosos, fiéis e nos tratam como membros da família. Até hoje, recebo ligações de pessoas que falam que oraram por mim quando souberam do assalto que sofri em janeiro. Pessoas de todas as classes sociais e idades. Algumas pessoas escolhiam comemorar seus aniversários com a gente no estúdio. Compravam bolo, salgadinhos, refrigerante e apareciam na rádio às 06h da manhã. Engordei alguns quilos por causa disso. Ah, que carinho gostoso! Alguns se tornaram amigos muito além do estúdio. Guardo com carinho todas as lembranças que ganhei nesses 12 meses. Hoje, dezenas de pessoas se espremeram no estúdio para acompanhar a última edição do programa. Foi emocionante! Apresentei a edição de 08h30 do jornal 'Rio em 1 Minuto' chorando, literalmente. Como prêmio deste período, fica a honra de ter produzido o belo programa especial de 40 anos do 'Show do Antonio Carlos, no dia 17 de março deste ano.

Farei parte do projeto da 'Nova Rádio Globo'. A partir da próxima segunda-feira, já estarei numa nova função e em novo horário, trocando às 4 da manhã pelas 4 da tarde. Conto com a torcida e compreensão dos amigos que ganhei neste último ano.
Ao Antonio Carlos e à Juçara, que deixaram a Rádio Globo hoje, desejo que muitos microfones se abram, seja o da Rádio Tupi ou de qualquer outra emissora. Estarei sempre na torcida por vocês, pois como diz o refrão da canção que escolhi para tocar no programa de hoje, "o show tem que continuar".
Muito obrigado por tudo e a todos que participaram deste momento especial da minha vida!