sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Ascendente


Como se fosse uma roleta russa, apertei desejando a bala certeira
Me atingiu, só não sei ao certo onde
O impacto me levou ao espaço
O mesmo espaço que tantas vezes dividimos em desencontros
E onde ela quis estar, eu estava, representado-a sem o seu consentimento 
Falando com os dedos viajei pelo tempo sem sair do lugar
Ela disse que era um encontro de planetas
Preferi acreditar que era uma estrela cadente
Rara, brilhante e fugaz
Nem tive tempo de fazer um pedido
No entanto, ela deixou um mapa, só que astral
Espero que ele indique o caminho para que nossas vidas se cruzem novamente
Pois não me deixou a imagem de um sorriso, um som ou um perfume
Nada, absolutamente nada que ajude na missão de reconhecê-la no universo
Porém, minh’alma não terá dúvida ao aproximar-se dela de novo
Se eu contar isso para os outros, vão dizer que estou no mundo da Lua
Mas se duvidam até que o homem um dia esteve lá
Por que dariam crédito para quem acredita em situações de outro mundo?

CANTHARINO, Renato

domingo, 21 de outubro de 2018

O final fica por sua conta...

Neste domingo, fui ao terceiro enterro no prazo de 10 dias, pois três grandes amigos perderam entes muito próximos. O primeiro perdeu o tio/padrinho num acidente de carro, após perder o controle do veículo e bater numa árvore. O segundo perdeu a avó, a pessoa mais importante da vida dele. Ela disse que não estava sentindo-se bem, deitou no colo de uma das filhas e deu o suspiro derradeiro. O terceiro e último, meu amigo desde o berço, passou horas procurando o pai, que havia saído antes do almoço para fazer compras. Ele só o encontrou às 21h30, no IML. Passou mal voltando pra casa e o coração não resistiu.
Três pessoas que não tiveram a chance de se despedir, de dar um beijo, de abraçar forte... Três pessoas que acordaram pensando que seria só mais um dia, não o último.
Essa é a vida, bela, intensa e compartilhável, porém, fugaz.
Os três partiram sem levar nada palpável daqui, mas deixaram riquezas incalculáveis dentro dos meus amigos e dos demais entes queridos.
Este até poderia ser mais um texto enorme que escrevo, mas acho que neste caso, a minha opinião/reflexão não tem valor algum pra outra pessoa. É só uma questão de interpretar a vida. Deixo essa publicação inacabada para que você, que dedica alguns minutos aos meus devaneios, conclua da forma que quiser. Se refletir, aja, beije, abrace e ame! Caso contrário, tenha um bom dia amanhã, pois será apenas mais um.

P.S.: Enquanto escrevia, essa música do síndico veio-me à cabeça:

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Decidi ter um quase cinquentão


O meu Fusca 1971 completou 1 ano! Como assim? Vou explicar, mas preciso voltar quase três décadas. No início da década de 1990, um vizinho comprou um lindo Maverick azul. Fiquei encantado com o design agressivo e com o ronco assustador do modelo. Era um autêntico carro de vilão de filme americano. Porém, na década de 1990, um carro fabricado na década de 1970 era considerado velho, não antigo. Mas de todos os carros da vila onde cresci, era o Maverick que fazia os meus olhos brilharem.
Pausa para uma queixa: quase 30 anos depois, até hoje não andei em um Maverick. Nem o vizinho e nem o seu filho, que é um grande amigo, me deram essa alegria.
Continuando... Saí da infância, passei pela adolescência e cheguei à fase adulta ainda apaixonado pelo Maverick azul. Em 2003, o meu vizinho ganhou de um de seus filhos outro Maverick, completamente original, o que não era o caso do outro. Então, ele resolveu vender o tão cobiçado Maverick azul. Na época, a cultura do antigomobilismo com carros da década de 1970 ainda engatinhava, o que fez com o valor pedido fosse muito baixo. Coincidentemente, naquela ocasião, aos 19 anos de idade, eu compraria o meu primeiro carro.  A ideia inicial era comprar um carro 0km básico ou um semi-novo com alguns acessórios. Mas quando fiquei sabendo que o Maverick estava à venda, mudei completamente os planos: compraria um carro de 5 anos de uso para o dia a dia e sobraria a grana para comprar o Maverick. Mesmo sendo com o meu dinheiro, consultei minha família. É claro que todo mundo achou loucura. Um dos argumentos era que eu só tinha uma vaga na garagem de casa. Eles venceram, comprei um carro novo e desisti do Maverick. Logo depois, o carro dos meus sonhos foi vendido. Nesses últimos 15 anos, o Maverick passou a ser um dos carros da década de 1970 mais cobiçados pelos antigomobilistas. Se eu o tivesse comprado em 2003, hoje, ele valeria pelo menos 10 vezes mais do que teria pagado na época. Esse é um dos maiores arrependimentos da minha vida.
Depois disso, quando pensava em ter um carro antigo, só cogitava um Maverick. Nos anos seguintes, tive alguns carros novos ou semi-novos. Porém, em 2014, o meu melhor amigo comprou um Fusca, modelo que é pra ele o que o Maverick é pra mim. Comecei a ir com eles a encontros de carros antigos, o que resgatou duas lembranças da minha infância: as histórias do Fusca laranjinha, o primeiro carro do meu pai, e o manual do proprietário do Fusca verde folha 1970 do meu padrinho, que foi uma das primeiras leituras da minha vida.  Por causa de um problema de visão, meu pai teve que parar de dirigir antes da minha vinda ao mundo. Meu padrinho também já não tinha mais o seu besouro, mas nunca soube o motivo para ter guardado o manual. Como na época, já não era mais possível comprar um bom Maverick por menos de R$ 40 mil (atualmente um exemplar do modelo com alto índice de originalidade e conservação já está perto dos R$ 200 mil), resolvi comprar num Fusca como meu hobby. Continuaria tendo um carro moderno, mas teria um antigo para acompanhar o meu melhor amigo nas exposições.
Após algumas semanas de procura em sites de venda, achei um 1971 vermelho cereja, único dono, com manual do proprietário, nota fiscal de fábrica e alto índice de originalidade. Era um verdadeiro tesouro. Comprei sem pensar duas vezes. O carro era um achado, no entanto, precisava de uma restauração total, pois só havia sido pintado uma vez em 43 anos e todo o interior era original de fábrica (bancos, forros e tecidos). 

No dia seguinte à compra, já o levei para a oficina do Chicão, meu lanterneiro de confiança. A previsão era que ficaria pronto em dois meses. Porém, Chicão teve grandes problemas de saúde relacionados à diabetes e ele não deixava nenhum funcionário mexer no meu carro. Era um serviço dele. Após 2 anos de muitas desculpas e prazos não cumpridos, Chicão morreu. O carro estava completamente desmontado em um canto da oficina. Cheguei a pensar em desistir do projeto e perder os quase R$ 7 mil reais investidos até então, que representavam a compra do carro e o sinal dos serviços de lanternagem e pintura. Mas não tive coragem, pois o histórico do carro era raríssimo. Não encontraria outro igual tão fácil. Em julho de 2016, tirei o carro da oficina do saudoso Chicão e levei para uma a 100 metros da minha casa. 

Na nova oficina, os trabalhos de lanternagem e pintura duraram 5 meses. Novamente, a vaga na garagem voltou a ser um empecilho. Precisava ter o Fusca por perto para providenciar o resto dos serviços que faltavam (capotaria, montagem, elétrica, mecânica...). 

Então tomei uma decisão radical: vendi o meu carro moderno, que chegava a ficar até um mês sem uso, pois sou bem atendido pelo transporte publico no trajeto casa x trabalho. Abri mão de ar condicionado, direção hidráulica, vidro elétrico, trava elétrica, air bag, piloto automático e outros itens de conforto.
A meta era deixar o Fusca exatamente como tivesse acabado de sair da linha de produção. Foi uma verdadeira torneira aberta de tempo e dinheiro. Sempre faltava algum detalhe. Comprei peças pelo Mercado Livre de quase todos os estados da federação. Além disso, cheguei a parar dentro de uma das favelas mais perigosas do Rio atrás de um botão do painel. Com a ajuda de vídeos do YouTube, restaurei em casa algumas peças de acabamento. Quando eu não estava trabalhando, estava na garagem mexendo no Fusca. Não sei como os meus dedos não caíram com a quantidade de produtos químicos que eu utilizava para tentar tirar as manchas de tinta e graxa das unhas.
Em outubro de 2017, finalmente, ele estava do jeito que eu queria. O investimento foi de pelo menos 30% a mais do seu valor de mercado após a restauração. Deixou de ser um hobby e virou um casamento, para nunca pensar em separação. 

Nesses últimos doze meses, juntos, escrevemos 6.500 quilômetros de histórias, viajamos para outro estado e fizemos ótimas amizades. Todo o prazer em dirigir que eu havia perdido, recuperei com intensidade. Aprendi o que era a tal “Fuscaterapia” que o meu melhor amigo falava. Quando o dia não está legal, basta sair pra dar uma volta pela cidade que volto revigorado pra casa. Aos finais de semana, quando a noite está bonita, costumo sair para comer um cachorro-quente na Praia de São Francisco, em Niterói, a 43 quilômetros da minha casa. Na Ponte Rio-Niterói, me sinto num túnel do tempo que me leva direto para a década de 1970.
Outro ponto positivo foi que me reciclei como motorista, pois a condução é totalmente diferente. Pra início de conversa, ele não tem retrovisor do lado direito. Ironicamente, esses doze meses também representam o maior período sem me envolver em um acidente de trânsito, desde o meu primeiro carro. Quem me conhece, sabe que o meu histórico de acidentes é extenso. Se juntar todos os Brats que tenho, a quantidade de folhas não ficará muito atrás da Bíblia Sagrada. Algumas pessoas até achavam que era um luxo trocar de carro a cada dois anos. Mas na verdade, elas não compreendiam que esse era o prazo máximo que um veículo durava na minha mão.
É impressionante como o Fusca mexe com a memória afetiva das pessoas, de todas as idades e classes sociais. Quase sempre que saio com ele, alguém para ao lado para elogiar, perguntar o ano de fabricação ou brincar perguntando por quanto eu venderia. 

Só no último mês, dois casos muito bacanas aconteceram. Estacionei rapidamente na porta de uma escola primária. Quando estava trancando a porta, se aproximou uma menina, de cerca de 8 anos, acompanhada pela mãe. Ela já chegou dizendo: “Mãe, é igual o que tenho em casa!”. Comecei a rir e a mãe me explicou que a menina é apaixonada por Fuscas e tem uma miniatura no quarto. Perguntei se ela já tinha entrado em um, a mãe respondeu que não. Então abri a porta e a mãe fez verdadeiro um book dela dentro do carro. Na que hora estava saindo, ela abraçou o volante como fosse um grande urso de pelúcia. Ganhei o dia!
Após alguns dias, estacionei o carro numa área quase deserta do shopping (antigomobilista tem pavor de parar perto de outros carros por causa das portas assassinas). Quando estava indo embora, o shopping já estava mais cheio, e ao lado do Fusca tinha um Renault Logan parado. Depois percebi que além do carro, tinha um senhor em pé, com tom de contemplação. Quando abri a porta, ele olhou pra mim e disse: “Tempo bom! Que saudade eu tenho desse carrinho!”. Batemos um papo por alguns minutos (algumas crianças até me comovem, mas idosos são o meu ponto fraco). Só não conversamos mais porque a esposa dele estava dentro do Logan esperando o fim dos saudosismos para ir embora. O Fusca é uma verdadeira máquina de arrancar sorrisos! Todo mundo tem uma história pra contar envolvendo este modelo da VW.
O meu Fusca foi utilizado nas gravações da nova versão do filme "O Beijo no Asfalto", do Murilo Benício. A estreia dele nas telefonas foi ao lado de Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos e Stenio Garcia. Nada mau para um senhor que quase foi aposentado compulsoriamente. 
Mas o que me deixou feliz de verdade, foi ele ter sido usado nas fotos do casamento dos meus afilhados Alyne e Yuri.

Mas não foram só vitórias. Como ele ficou praticamente 3 anos parado, alguns problemas mecânicos foram surgindo conforme foi voltando a rodar. O pior de todos foi quando a roda traseira esquerda se soltou dentro do túnel Noel Rosa. Isso mesmo, no Noel Rosa, o túnel mais assustador do Rio de Janeiro. Outro problema que me deu muita dor de cabeça foi o entupimento da linha de combustível. Quando eu pisava fundo no acelerador, o carburador tentava puxar mais combustível, só que não chegava a quantidade suficiente, aí o carro começava a engasgar até morrer. Mas meu carma com túneis ainda não havia acabado. Por causa desse problema, enguicei no túnel da Covanca, na Linha Amarela e no Túnel Marcello Alencar. Troquei várias peças até descobrir que bastava limpar o canal por onde passava a gasolina. A última vez que ele me deixou na mão, foi em junho, quando estava indo passar um fim de semana em Visconde de Mauá. Tinha acabado de conseguir um posto para abastecer, pois foi no dia que acabou a greve dos caminhoneiros. Saí do posto e parei num sinal, acionei a embreagem e o pedal foi até o final, sem engatar a marcha. O disco de embreagem tinha ido pro espaço. No fim das contas, um amigo antigomobilista me ofereceu um de seus carros, o que salvou o meu fim de semana.
Depois da conclusão da restauração, ficou faltando apenas uma coisa: um nome! Como ele foi fabricado em 1971, ano do nascimento do meu maior ídolo no automobilismo, o meu Fusca passou a ser chamado de Jacques Villeneuve, ou apenas Villeneuve para os mais íntimos.

O grande problema é que após o primeiro carro antigo, é difícil saber a hora de parar. Daqui a alguns dias, fica pronto o Nelson Piquet, um Chevette 1987, com o raro interior marrom tabaco e apenas 80 mil quilômetros rodados, comprado por mim há dois meses. Como ele ainda estava com a pintura original, levei para dar um banho de tinta.
A grande pergunta que me faço novamente é: onde vou guardá-lo? Se tiver uma vaga sobrando aí na sua casa, me avisa!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Perdi mais uma

Quase não consigo mais separar um tempo para escrever nesse meu “divã virtual”, mas quando acontece, infelizmente, o tema tem se repetido. Já postei alguns textos falando sobre casos de violência dos quais fui vítima. A lista ganhou mais um episódio.
O grande desafio para quem tem o hobby do antigomobilismo é conseguir peças originais, já que as montadoras não as fabricam mais e as paralelas são de péssima qualidade. O lance é garimpar na internet, sucatas na rua e ferros-velhos. Fiquei três anos restaurando o ‘Villeneuve’, e, como sou detalhista ao extremo, me tornei especialista em encontrar “moscas brancas”. Mas o meu transtorno perfeccionista vai além do que é meu, pois fico perturbando amigos próximos para que troquem peças desgastadas de seus veículos. Como o garimpo é a parte mais divertida, tipo uma caça ao tesouro, me ofereço para encontrar as peças das quais só eu estou incomodado, mesmo não sendo para o meu carro.
Foi por esse motivo que eu e um grande amigo quase fomos assassinados no dia 11 de agosto, véspera do Dia dos Pais. Um dos carros antigos desse amigo é um raro Chevette, porém, a parte superior do painel estava rachada por causa do sol, algo comum em veículos das décadas de 1980 e 1990. Falei tanto no ouvido dele que acabou resolvendo trocar. Durante a procura, encontrei o anúncio de um carro do mesmo modelo do dele que seria vendido como sucata, em São João de Meriti. Pedi mais fotos para o vendedor e fiz o levantamento da placa no aplicativo ‘Sinesp Cidadão’ para ter certeza que o veículo não era roubado. Como apareceu ‘situação legal’, avisei ao amigo: “achei o painel bom para o seu carro”. Na manhã de sábado, fomos ao Città America, mas combinamos que depois iríamos ao município da Baixada Fluminense. E assim fizemos.
Liguei para o vendedor e ele informou que levaria a tia em Bonsucesso, mas que voltaria antes de chegarmos lá. Eu e o meu amigo seguimos para o bairro Jardim Metrópole, em São João de Meriti. Quando perguntei o nome da rua, o vendedor perguntou: você conhece a rua tal? Como bom malandreco da Zona Norte, não ia dar mole e falar pro cara que estávamos indo de olhos fechados. Afirmei que conhecia a região como a palma da minha mão. Quando chegamos ao bairro, liguei pra ele novamente e perguntei o número da casa. Foi aí que a história começou a ficar estranha. Ele respondeu: “Tô chegando ainda, mas quando entrar na rua, vai seguindo que você verá o carro estacionado”. Quando nos demos conta, já estávamos entrando numa comunidade, então abrimos os vidros do carro e continuamos seguindo em frente, tentando aparentar tranquilidade. Mas erramos também na escolha do carro que utilizamos para essa missão. O carro moderno do meu amigo é um Ford Ka preto, com vidros bem escuros, exatamente o mesmo modelo utilizado atualmente pela polícia do Rio, o que significa que facilmente poderíamos ter sido confundidos com agentes da P2, o serviço reservado.
Quem me conhece bem, sabe que tenho medo de cair da escada e bater a cabeça, medo de escorregar numa trilha e despencar do barranco, medo de dormir logo depois de beber e me engasgar, medo da barra do supino escorregar da minha mão e cair no meu peito enquanto me exercito, medo de pular numa piscina e cair de mau jeito, medo do mar e de tantas outras coisas. Porém, sou totalmente desprovido do temor de outro ser humano. Na minha cabeça, funciona assim: posso evitar situações em que me coloco em risco sozinho, mas não posso evitar o desejo do outro de querer me fazer algum mal. Aí corro o risco. É um pensamento estúpido, eu sei. Mas é essa “confiança” que me faz ir a qualquer lugar, sem me preocupar com quem posso encontrar pelo caminho.
Quando chegamos quase no final da rua, vi o Chevette parado e estacionamos. Na empolgação ignorei que o veículo estava estacionado logo atrás de barricadas. Quando desembarquei do carro, já ouvi gritos de: “Levanta a mão! Levanta a mão, porra!”. Quando olhei pra frente, alguns adolescentes estavam com pistolas apontadas pra mim. O líder do bando ordenou que eu encostasse na parede com a camisa levantada. Enquanto isso, o meu amigo ainda estava saindo do carro, também com armas apontadas na direção dele. Comecei a argumentar repetidamente em voz alta “só vim ver o carro”. Os marginais, que estavam a cerca de 20 de metros de distância de nós dois, se aproximaram. Na mira de suas pistolas, os nossos corpos encostados na parede. Enquanto nos ameaçavam, continuei repetindo que estava lá só para ver o carro. Após se certificarem que não estávamos armados, o líder assumiu o contato e me pediu desculpa pela abordagem. Isso se repetiu mais duas vezes enquanto caminhávamos escoltados pelas marginais até o carro. Enquanto esperávamos o dono do carro chegar, o líder do grupo nos fazia companhia e tentava manter um diálogo falando que sei lá quem da família dele também já teve um Chevette maneiro. Na mão direita, ele segurava uma pistola, que balançava gesticulando durante toda a conversa. Como estávamos em estado de choque, aparentamos uma tranquilidade fora do comum, não demonstrando qualquer desespero com a ocasião. O vendedor do carro chegou cerca de 10 minutos depois: um militar de origem humilde que é obrigado a aceitar o QG do crime na porta de sua casa. Ele logo pediu desculpa aos criminosos por não ter avisado que iríamos lá. Foi aí que descobrimos que no dia anterior, um carro descaracterizado havia passado pela mesma rua efetuando disparos contra os marginais que estavam na contenção. Isso significa que todos aqueles adolescentes estavam com os nervos à flor da pele, o que poderia ter motivado que atirassem primeiro pra que depois descobrissem que éramos inocentes. Para não deixarmos nenhuma suspeita, teríamos que levar a peça, só que ela ainda estava montada no veículo. Ficamos um pouco mais de uma hora no local, na linha de tiro de qualquer confronto que acontecesse ali, rodeados por quase uma dezena de jovens armados. Já estava escurecendo quando o painel já estava em nossas mãos para que viéssemos embora. O vendedor e a mãe dele nos pediram desculpas pela recepção. Os criminosos, que quase nos mataram, se despediram como estivessem falando com velhos camaradas. O tormento havia acabado e estávamos voltando para as nossas casas são e salvos.
Já fui vítima de alguns casos de violência: dois assaltos a mão armada nos últimos dois anos; um sequestro relâmpago em que fui obrigado a furar uma blitz da polícia e uma entrada por engano no Complexo do Chapadão por volta de uma hora da manhã. Em todas essas situações, tive armas de fogo apontadas pra mim, com o meu destino no gatilho de um desconhecido. Todas as vezes consegui com surpreendente tranquilidade iniciar um diálogo, o que acabava gerando uma relação de confiança entre mim e o meu possível algoz. Mas nunca senti a morte tão de perto como dessa vez. Consegui sair de lá inteiro fisicamente, mas parecia que a minha alma estava ferida. Combinamos que não contaríamos pra ninguém o que aconteceu, até porque seríamos, com toda razão, chamados de idiotas. E assim fizemos durante alguns dias. O meu amigo só contou para a esposa e para seus irmãos. Eu nem isso fiz. Na semana seguinte, conversamos com um amigo que temos em comum, que sem saber que era um segredo, acabou colocando o assunto em pauta quando outros amigos chegaram para o nosso encontro semanal.
Mas eu não estava bem. Durante duas semanas, tive grande dificuldade de manter relações sociais. Estava azedo, sem paciência, questionando diversas situações da minha vida, achando que se tivesse morrido encostado naquele muro, teria deixado muitas coisas mal resolvidas, pendências que não poderia mais zerá-las. No último domingo, mesmo depois de um fim de semana repleto de compromissos, eu recebi um forte chamado. Sem participar de uma Missa desde 16 de abril de 2017, eu precisava encerrar o meu domingo na Basílica Imaculada Coração de Maria. A paz do meu coração estava lá, pois até então, estava considerando apenas como 'sorte' o livramento e não agradeci a quem realmente mais uma vez travou o gatilho de um bandido, da mesma forma que me protegeu pra que eu saísse sem um arranhão sequer de um capotamento e também do acidente no Alto da Boa Vista, quando acabei com três carros após derrapar numa curva. Deus me deu outra chance, de novo! Sempre questiono o que Ele espera de mim. Como não sou um cientista que pode um dia descobrir a cura do câncer, prefiro acreditar que o desejo Dele é que eu ofereça amor ao próximo, seja nas atitudes, nas palavras e até mesmo com o meu trabalho.
Não sei quantas vidas ainda tenho pra gastar. Na dúvida, vou aproveitar a de agora, não esquecendo de pagar as dívidas das vidas que já perdi.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A solução é a despedida

Sou fruto de miscigenação curiosa. Nasci no Rio de Janeiro, mas meu saudoso pai era filho de uma capixaba com um italiano. Já a minha mãe é paraibana. Por causa dessa improvável árvore genealógica, cresci sem ter contato com avós, tios, primos e demais familiares. Mas desde pequeno tive a compensação, e que compensação! Tenho os melhores amigos do mundo e suas famílias acabam sendo minhas também! Mas há cerca de 10 anos, se iniciou um fenômeno que parece não ter fim: a maior parte dos meus amigos de longa data desistiu do Rio de Janeiro.
Começou no início de 2009, quando um grande amigo, que fiz na época de coordenação de Crisma, aceitou uma boa proposta de emprego e foi morar em Guarulhos. Nossa amizade foi muito além da igreja. Durante o auge da nossa adolescência, ele foi meu principal companheiro de aventuras. Foi com ele que fundei a ‘Turbinol’, a banda que só fez um show. Em 2011, fui a São Paulo presenciar o casamento dele. Atualmente, tem dois filhos com a esposa.
Em 2010, foi a vez de um casal muito próximo abandonar a casa que tinha acabado de reformar no Rio para viver a paz da cidade de Bananal, em São Paulo. Atualmente, ele que é geógrafo, vive tranquilamente com a esposa e o filho, e ainda tem tempo para se engajar em causas ambientais da região.
Dois anos depois, foram duas pancadas! Na semana do meu aniversário, o amigo que é o meu irmão mais velho, conselheiro e refúgio nos momentos mais difíceis. Ele deixou uma ascendente carreira no Rio de Janeiro, após aceitar um convite para trabalhar no Distrito Federal. Hoje em dia, é uma referência em uma determinada área da saúde mental. Ainda em 2012, outro casal de amigos decidiu que aqui não era mais um bom lugar. Os dois abandonaram empregos em grandes empresas para viver em Londres. Há poucas semanas, nasceu a primeira filha deles, uma linda princesa londrina!
Em 2014, outro grande amigo muito importante na minha história de vida, e que durante a década de 1990 era o meu ídolo, pois foi um dos artistas mais influentes do cenário underground carioca. Deixou a cidade que um dia viu sua foto estampada nos cadernos de cultura dos jornais para montar uma pousada na pacata cidade de Cunha, em São Paulo. Além de cuidar da bela pousada com temática musical, seu hobby é fazer apresentações em outros estabelecimentos, tocando e cantando canções de artistas que o influenciaram.
Em 2015, a mulher que foi a minha primeira grande amiga. Depois de passar por um sombrio período de depressão, ela desconfiou que a sua cura poderia estar no aeroporto. Deixou toda a tristeza pra trás e foi ser feliz na Colômbia. Nos falamos há alguns dias. Ela está mais feliz do que nunca, prosperando profissionalmente e já preparando o segundo passo da sua busca pela felicidade: Europa.
No ano de 2016, foi a vez da minha então namorada. Ela é natural de Jacareí, uma cidade do interior de São Paulo. Após 7 anos morando no Rio de Janeiro, não aguentou mais. Após ter sintomas de síndrome do pânico, descobriu durante alguns dias em sua terra natal que a cidade maravilhosa estava afetando a sua saúde.
No ano passado, mais um casal, do qual sou padrinho de casamento. Ele, um dos engenheiros de telecomunicações mais requisitados na implementação da telefonia móvel no país, não conseguia mais usufruir dos bens que conquistou com muito suor. Apaixonado por motos esportivas, após ser rendido por bandidos na porta de casa, não tinha mais tranquilidade para curtir o seu hobby. Vendeu tudo e foi morar com a esposa no Texas.
Mas 2018 já começou com uma grande surpresa. Desta vez, é o meu melhor amigo, que há mais de 20 anos é o meu irmão de alma. O cara com quem no início da adolescência dividi composições e as paixões por música e automobilismo. Ele é a pessoa com quem mais briguei na vida, por isso acredito que também seja a que mais me conhece. Quando voltamos a nos falar, depois de um período de 3 anos brigados, nós dois estávamos em processo de irmos morar com nossas companheiras, mas não sabíamos que as duas tinham o mesmo nome. Só que a dele, com quem está casado e me deu um sobrinho, nasceu exatamente no mesmo dia que eu: 10/03/1984.
No grupo de whatsapp dos amigos de infância, ele sempre fala: “eu já sabia que o Renato daria essa resposta”. Quando achamos que o outro não está bem, não mandamos mensagem perguntando se está tudo certo. Telefonamos logo um pro outro, pois o “alô” já responde a nossa dúvida.
Porém, a história se repete: ele vai trocar um ótimo emprego numa multinacional para proporcionar mais qualidade de vida à família, na cidade de São Carlos, em São Paulo. Hoje, coube a mim o papel de marcar a despedida com os amigos de infância. Logo depois, coincidentemente, a rádio que eu estava ouvindo tocou a música ‘Big Empty’, do Stone Temple Pilots, nossa segunda banda favorita, pois a primeira dele é o Pearl Jam e a minha é o Soundgarden. Na hora, mandei pra ele o print do aplicativo da rádio com o nome da música que estava tocando. E foi assim a minha quarta-feira de cinzas, um verdadeiro ‘Big Empty’ ou ‘Grande Vazio’ em português.
Há um senso comum entre todos os meus amigos que tiveram coragem de partir: nenhum deles cogita a possibilidade de voltar a morar no Rio de Janeiro.



Minha profissão me faz enxergar tudo com olhar crítico. A cada dia fico mais desanimado com o que presencio no Rio de Janeiro. Não são apenas os políticos, basta ter um evento como o carnaval, para perceber que uma parte da população merece os governantes que tem. O rio não dá mais certo.
Desde 2009, quando meu primeiro amigo saiu do Rio, fui vítima de um sequestro relâmpago, depois tive o meu carro e pertences roubados enquanto estacionava num dos pontos mais movimentados da noite carioca. E por último, em janeiro do ano passado, fui assaltado e agredido a caminho do trabalho, às 04 h da manhã. Além disso, também sofri dois furtos durante a cobertura de grandes eventos. Já contei alguns desses casos aqui no blog.
Enquanto escrevia este texto, um amigo postou no Facebook que estava acontecendo mais um arrastão no Túnel Santa Bárbara, que é uma das vias mais importantes da cidade.
Como as minhas amizades mais recentes ainda estão por aqui, seguimos confraternizando em nossas casas, onde nos sentimos um pouco mais seguros e menos afetados pela desordem e a falta de educação de uma parte da população.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O que te envelhece?

Na última sexta-feira, uma mensagem escrita por um motorista de ônibus me fez refletir bastante. Uma folha de caderno colada no interior do coletivo divulgava a seguinte mensagem: "O corpo envelhece sem a sua permissão. Já a alma, só envelhece se você permitir. Faça cada dia da sua vida valer a pena."

No dia anterior, havia citado alguns nomes durante uma conversa. Alguns deles me causaram um certo desconforto, seja por causa de mágoa, frustração, decepção ou perdão. Quando entrei no ônibus da linha 422 no dia seguinte, e li a mensagem do motorista Ivan Cabral, fiquei buscando respostas sobre o que envelhece a minha alma. Cheguei à conclusão que o principal é o perdão (ou a falta dele), mas aquele tipo que é ainda mais difícil: perdoar a si mesmo.
É muito fácil encher a boca para falar mal de alguém, dizer que fulano te sacaneou, etc... Mas será que sempre pensamos que em qualquer relação (familiar, amorosa, de amizade, profissional...) somos 50%? Às vezes, basta uma rápida autoavaliação de conduta para perceber o que despertou o pior do outro.
A partir dessa reflexão, você tem duas opções: não fazer nada e continuar carregando essas sombras ou ir atrás da verdadeira paz de espírito, pois ninguém será plenamente feliz enquanto tiver tempo e energia para gastar com sentimentos ruins.
Talvez você não consiga sanar todas as suas dívidas, pois como disse anteriormente, você é apenas 50% de qualquer relação e cada um só oferece o que tem. Porém, tentar já é fazer a vida valer a pena!
PS: Obrigado pela mensagem, Ivan! Sua atitude faz a diferença no meio desse caos! 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

C..., é o meu chapéu!

"Caralho, é o meu chapéu!"
Me desculpem pelo palavrão, mas não consegui pensar em outra frase para começar este texto.
Esta foi a mais pura expressão do que senti no dia 12 de dezembro de 2007. Segue o vídeo:

Eu era um pré-adolescente em meados da década de 1990, mas já sabia qual gênero musical me acompanharia para o resto da vida. E o Chris Cornell, através do Soundgarden, foi a personificação da minha paixão pela música. Da mesma forma e na mesma época, surgiram as outras duas paixões que carrego intensamente até hoje: automobilismo, personificada na figura do piloto canadense Jacques Villeneuve e o rádio, representada pelo 102,9 FM da extinta Rádio Cidade e do então jovem locutor Rhoodes Lima, que atualmente é o maior narrador de MMA do país, e sempre foi a minha principal referência profissional. Essas foram as minhas paixões de adolescente. Que me perdoem as namoradinhas da época (admito que não foram muitas). Na verdade, minha vida amorosa só ficou mais agitada quando a Rádio Cidade chegou ao fim pela primeira vez, o que acabou coincidindo com o ano da aposentadoria do Jacques Villeneuve. Foi aí que começou a sobrar tempo aos fins de semana para outras coisas, como namorar. Já na fase adulta, eu sempre falava para as minhas namoradas: "Você é prioridade até o assunto chegar ao Chris Cornell ou ao Jacques Villeneuve". Tanto que nesta manhã, uma das primeiras mensagens que recebi sobre a morte do Chris Cornell, foi da minha ex-esposa.
Pouco tempo após eu descobrir a banda, que para mim é a melhor da história, o Soundgarden anunciou o fim das atividades, no dia 09 de abril de 1997 (que também é o dia do aniversário do Jacques Villeneuve). Achei que era o sepultamento do sonho de assistir ao incrível quarteto de Seattle ao vivo, pois o grupo ainda não havia tocado no Brasil.
Mas não demorou até o Cornell lançar um bem sucedido disco solo. Mas a grande surpresa veio mesmo em 2002, quando ele montou o Audioslave com ex-integrantes do Rage Against The Machine. Continuei acompanhando, comprando discos, mas sem o mesmo entusiasmo que tinha na época do Soundgarden. Em apenas cinco anos, a banda lançou 3 discos. Após o fim do Audioslave, em 2007, Chris Cornell saiu em turnê cantando músicas da carreira solo, do Soundgarden, do Temple Of The Dog e do Audioslave. E foi nesta turnê que Cornell desembarcou pela primeira vez em terras tupiniquins. Acompanhado pelos excelentes músicos Peter Thorn (Guitarra), Yogi Lonich (Guitarra), Corey Mc Cormick (Baixo) e Jason Sutter (Bateria), Cornell passou a limpo os seus 25 anos de carreira, no palco do Citibank Hall. Eu não poderia estar em outro lugar que não fosse a primeira fila. A minha principal identidade visual na adolescência, era a utilização de chapéus australianos. Eu tinha uma coleção, de várias cores. Como no início dos anos 2000, eu participei do cenário da música independente carioca na produção de shows do "Mandril" e na apresentação de boa parte dos shows das 3 primeiras edições da coletânea "Tributo ao Inédito", os conhecidos me encontravam nos shows por causa do chapéu. Então, no dia 12 de dezembro de 2007, resolvi tirar do fundo da gaveta o chapéu vermelho, que já estava aposentado há alguns anos. Percebendo o meu estado de êxtase (ou total descontrole), o Cornell algumas vezes veio em minha direção cantando, me encarando a poucos centímetros de distância. Até que no meio do show, resolvi jogar o meu chapéu no palco (nunca entenderei o motivo). Ele pegou o chapéu, pendurou no pedestal e começou a cantar a música "Be Yourself". Após o fim da canção, ele me devolveu o chapéu. Para completa compreensão do que foi este momento, que inspirou o título desta publicação, é necessário que você assista o vídeo do início do texto.
Porém, minha história com Chris Cornell não parou por aí. No final de 2009, ele anunciou a volta do Soundgarden e em 2012, a banda lançou um disco com músicas inéditas, o que não acontecia desde 1996. Em 2013, nos encontramos novamente. Desta vez, num formato mais intimista, em um show acústico no Vivo Rio. E finalmente em 2014, realizei um dos maiores sonhos da minha vida, que era assistir a um show do Soundgarden. Essas experiências foram detalhadamente contadas em outras publicações aqui do blog. Para quem quiser saber, seguem os links:




Peço licença para repetir apenas um trecho do texto que publiquei em 2013, pois é uma das histórias mais lindas que já tomei conhecimento:

"A minha admiração pelo Chris Cornell não é apenas por considerá-lo o melhor cantor da história do rock, vocalista da minha banda preferida ou por ser o músico mais influente do movimento grunge (essa afirmação está explícita no documentário Peal Jam Twenty). Em 2009, o Chris teve a atitude mais comovente que já vi por parte de um artista. Segue a notícia  publicada no site Cifra Club, no dia 21 de abril de 2009:
"Chris Cornell disponibilizou para download a música , feita em parceria com Rory de La Rosa, um fã do cantor.
De la Rosa perdeu a filha Ainslee, que tinha seis anos, vítima de câncer no ano passado. Pouco depois, ele foi diagnosticado com a mesma doença.
O fã quis entrar em contato com o cantor para dizer como a música de Cornell havia sido importante em sua vida e na ligação que ele tinha com sua filha.
O cantor se comoveu com a história e respondeu a mensagem. A correspondência dos dois resultou em um poema escrito por Rory de la Rosa que acabou transformado em uma canção.
I Promise it’s Not Goodbye pode ser baixada no site oficial do cantor gratuitamente. Na página há também um link para quem quiser fazer doações a Rory de la Rosa e sua família em memória de Ainslee e para ajudar com as contas do tratamento médico. "
As fotos do vídeo são da pequena Ainslee.

Já assisti este vídeo algumas vezes e nunca consegui chegar ao final sem estar com os olhos marejados."

Diferente do que acontecia anteriormente, na manhã deste 18 de maio de 2017, chorei mais uma vez ouvindo a canção, mas o motivo foi outro.
Depois de uma longa e turbulenta noite de trabalho, acordei cedo para saber se o Michel Temer já havia renunciado. Mas em meu celular, já estava a mensagem de um grande amigo informando que uma parte importante da minha história havia morrido. Foi apenas a primeira de muitas mensagens. Todas as pessoas disseram que foi impossível não lembrar de mim quando souberam da notícia.
E o chapéu? Eu sempre fazia a estúpida brincadeira dizendo que quando o Cornell morresse, ele ia valer um bom dinheiro. Não poderia imaginar que esse dia chegaria tão precocemente. E é claro que não há dinheiro no mundo que pague a lembrança de um dos momentos mais incríveis da minha vida.

Me esforcei para este texto não soar fúnebre, mesmo estando com o coração devastado, pois o Cornell me ofereceu a sua arte, que sempre foi sinônimo de felicidade, euforia e boas lembranças.
Obrigado por ter feito minha vida mais feliz!
Descanse em paz, cara!


I promise it's not goodbye!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O show tem que continuar...

Hoje, desativei o alarme do celular que me despertava às 02h50, desde o dia 1º de abril de 2016. Algumas vezes, parecia que ele tocava antes mesmo de eu ter conseguido dormir, e talvez isso até tenha acontecido. Mas nunca perdi a hora, nunca atrasei durante este período. Qualquer pessoa que me conheça minimamente, vai duvidar que não atrasei no último ano, mas é verdade. A responsabilidade de estar produzindo o principal programa do rádio brasileiro corrigiu até um dos meus defeitos crônicos. Já até tentei achar explicações patológicas para os meus atrasos, mas nunca consegui convencer aqueles que já me esperaram até por horas em compromissos marcados por mim. Neste período, trabalhei com o maior comunicador de rádio do Brasil, mas esse Antonio Carlos todo mundo conhece. Porém, tive a oportunidade de conhecer o profissional por trás do microfone. E com esse aprendi muito! Ele nunca faltou e nem chegou atrasado. Não dorme tarde e usa 8 despertadores em volta da cama, para não correr o risco do "cochilo de só mais 5 minutinhos" que sempre acaba de forma trágica. Aprendi como se faz um programa de rádio totalmente dedicado ao ouvinte, sem que o gosto pessoal do comunicador interfira no conteúdo. Nunca ouvi o Antonio Carlos falar "o meu programa".  Também aprendi o que é uma equipe de verdade, daquelas que são imbatíveis, tipo a seleção brasileira da Copa de 1970. Mas para dar certo, todos têm que desempenhar as suas funções com perfeição.
Se você acha que sou uma pessoa bacana, é porque não trabalha comigo. Quando a luz vermelha "no ar" acende no estúdio, me transformo no cara mais perfeccionista e sério (chato) do planeta. Já me aborreci com bons amigos que não me levaram a sério enquanto eu produzia um programa. Se algo dá errado, minha coluna começa a travar e a cabeça a doer. Como não gosto de me sentir assim, só tenho a opção de fazer o melhor possível, mesmo que isso signifique regravar a mesma reportagem 8 vezes, até achar que tirei o melhor de mim. Acredito que a seriedade (até exagerada) com o trabalho tenha sido responsável pelo respeito que o Antonio Carlos demonstrou ter por mim, desde quando cobri as férias do Gelcio Cunha pela primeira vez, em janeiro do ano passado. Não sou amigo pessoal do Antonio Carlos, por isso me limito a falar dele apenas como profissional. Mas pelo pouco que sei, o caminho que ele percorreu até se tornar o radialista mais bem sucedido do país, daria um belo livro. Como profissional, ainda não conheci e provavelmente não conhecerei alguém mais disciplinado e focado no trabalho.

No entanto, admito que no início não achava que seria assim. Fiz jornalismo acreditando no dever cívico da profissão. Por isso, sempre quis ser repórter, prestar serviço, denunciar as mazelas da nossa sociedade, ser a "voz do outro que há dentro de mim", como canta o Frejat num trecho da música 'Política Voz' do Barão Vermelho. Não é a toa que escolhi essa música para tocar na minha colação de grau. Vinte dias antes de assumir a produção do 'Show do Antonio Carlos', estreei na programação da Rádio Globo o quadro 'Conta Pra Gente'. Era o resgate da essência do trabalho construído pelos grandes repórteres que passaram pelo Amarelinho da Globo, como Gelcio Cunha, Robson Aldir e Alberto Brandão. Em apenas 3 semanas, resolvemos os problemas de muitas pessoas, chorei dentro do Amarelinho após entrevistar uma senhora que havia perdido tudo por causa de uma forte chuva e bati boca com um prefeito da Baixada Fluminense que tentou insinuar que a minha denúncia não era verdadeira. Estava no auge do meu sonho de estudante. Quando soube que abandonaria o quadro para ser produtor, não pensei duas vezes: fui à sala do diretor para comunicar que pediria demissão. Além do diretor, estava na sala também o meu coordenador. Os dois ficaram surpresos e tiveram a paciência necessária para me fazerem reconhecer que estava sendo impulsivo e imaturo. Sou grato aos dois por isso. Achei que era o fim da minha carreira como repórter. Mas, na verdade, era apenas um recomeço na forma de fazer jornalismo e prestar serviço. Em poucas semanas, percebi que assumir a produção do programa nº 1 do rádio brasileiro era uma honra, daquelas que merecem destaque no currículo. Mesmo sendo fã e ouvinte do Antonio Carlos, nunca me imaginei trabalhando com ele. Numa mesma edição do programa, eu gargalhava até doer os músculos da face brincando com a Juju e o Gelcio, mas também me emocionava com as histórias contadas no quadro 'As canções do Rei e as histórias de cada um'.
Já que o programa acabou, vou fazer uma confissão: enviei uma carta para a produção do programa me passando por um ouvinte, pois queria me despedir de alguém especial no quadro 'As canções do Rei...'. Toda a história foi real, apenas os nomes não eram verdadeiros. A responsável por esse quadro era a Aldenora Santos, a Pudica. Ela recebia as cartas e e-mails dos ouvintes e passava as histórias para linguagem radiofônica. O mais engraçado foi ela me falando "Cantharino, você leu a história desse ouvinte? Que emocionante!". O único que soube na época que era a história da minha vida foi o Antonio Marcos Pires, o Toninho Bondade, que atualmente é um dos meus melhores amigos. Não comentei com ninguém que faria isso e utilizei nomes que só faziam sentido para mim e para a pessoa. Mas surpreendentemente, logo após o fim do quadro, recebi a seguinte mensagem de um amigo de infância que era ouvinte do programa: "Bela homenagem, amigo!"
(Pausa para ouvir novamente a gravação)
Na mesma época, o Gelcio Cunha me provou que é uma das pessoas com o coração mais belo que habitam este mundo. Dos integrantes do programa, sempre fui o primeiro a chegar à rádio. Um dia, o Gelcio chegou e não respondi o seu "bom dia" com a mesma alegria de sempre. Mesmo enrolado com a pauta das entrevistas (ele também é a pessoa mais enrolada que eu conheço), me chamou na mesa dele e perguntou o que estava acontecendo. Respondi qual era o motivo da minha tristeza. E quando menos eu esperava, ele me abraçou forte e começou a chorar. Durante uma semana, ele fez questão de ir tomar café da manhã comigo depois do programa, no bar ao lado da rádio. Admiro muito a Juçara, a Aldenora e a Zora, elas são as melhores no que fazem, mas nunca fomos muito próximos.
A partir da minha entrada na equipe, começamos a fazer reuniões de pauta após o programa, para decidirmos os temas e entrevistados do programa seguinte. Participava também da reunião a minha amiga e chefe Heloisa Paladino. Era uma verdadeira terapia! A gente ria até perder o ar com o Antonio Carlos contando histórias sobre seus quase 60 anos profissão. A cada reunião, ele nos enriquecia de conhecimento sobre a história dos meios de comunicações com seus heróis e vilões.
Deixei a parte mais importante para o final: os ouvintes! Os ouvintes do 'Show do Antonio Carlos' são diferentes, eles são amorosos, fiéis e nos tratam como membros da família. Até hoje, recebo ligações de pessoas que falam que oraram por mim quando souberam do assalto que sofri em janeiro. Pessoas de todas as classes sociais e idades. Algumas pessoas escolhiam comemorar seus aniversários com a gente no estúdio. Compravam bolo, salgadinhos, refrigerante e apareciam na rádio às 06h da manhã. Engordei alguns quilos por causa disso. Ah, que carinho gostoso! Alguns se tornaram amigos muito além do estúdio. Guardo com carinho todas as lembranças que ganhei nesses 12 meses. Hoje, dezenas de pessoas se espremeram no estúdio para acompanhar a última edição do programa. Foi emocionante! Apresentei a edição de 08h30 do jornal 'Rio em 1 Minuto' chorando, literalmente. Como prêmio deste período, fica a honra de ter produzido o belo programa especial de 40 anos do 'Show do Antonio Carlos, no dia 17 de março deste ano.

Farei parte do projeto da 'Nova Rádio Globo'. A partir da próxima segunda-feira, já estarei numa nova função e em novo horário, trocando às 4 da manhã pelas 4 da tarde. Conto com a torcida e compreensão dos amigos que ganhei neste último ano.
Ao Antonio Carlos e à Juçara, que deixaram a Rádio Globo hoje, desejo que muitos microfones se abram, seja o da Rádio Tupi ou de qualquer outra emissora. Estarei sempre na torcida por vocês, pois como diz o refrão da canção que escolhi para tocar no programa de hoje, "o show tem que continuar".
Muito obrigado por tudo e a todos que participaram deste momento especial da minha vida!

terça-feira, 18 de abril de 2017

Obrigado pela companhia!

Pensei em escrever este texto há duas semanas, quando o fato aconteceu, mas o tempo estava escasso na primeira metade deste mês. E como hoje é comemorado o 'Dia Nacional do Espiritismo', talvez essa era a deixa que eu precisava para separar um tempo para escrever sobre, o que pra mim é sempre libertador. Sou católico, sempre fui. Comecei a ser praticante aos 15 anos de idade, quando fiz Crisma. Logo em seguida, me tornei coordenador de Crisma e catequista na Paróquia Divino Salvador. Foram 5 anos dentro da igreja durante todos os fins de semana. Saí do trabalho pastoral meses antes de completar 20 anos, mas nunca deixei de crer na minha religião. Por causa disso, sempre fui muito cético com outras religiões. Mas respeito todas as religiões, sem exceção, pois aqui em casa sempre reinou o livre arbítrio religioso. Meu saudoso pai era diácono da Igreja Presbiteriana, enquanto minha mãe frequentava um centro espírita. 
Este texto não é religioso (ou não era pra ser). É sobre o meu pai, o Elton John e certezas.
Nos últimos 4 anos de vida, meu pai passou dois longos períodos internado. O primeiro foi em 2005, e o derradeiro em 2008. Durante as duas internações, havia um rádio ao lado da cabeceira da maca, que quando não estava sintonizado na JB FM, principalmente no horário do Iseumar Pereira, pois era o locutor preferido dele, estava tocando um CD de grandes sucessos do Elton John. Na década passada, era normal fazer cópias de CDs e deixar os originais guardados em casa. Eu carregava no carro um case só com cópias dos CDs que tinha em casa. O CD original do Elton John é da minha mãe, e como ela é muito cuidadosa e até um pouco ciumenta com os seus pertences, fiz um cópia da coletânea para não ter problema. Ainda dei um toque pessoal, adicionando duas canções que eu achava que faltavam no CD: 'I Want Love' e 'Empty Garden'.
Uma semana após a morte do papai, em janeiro de 2009, o Elton John se apresentou no Brasil. E o show de São Paulo foi transmitido ao vivo pela TV Globo. Dois dias depois, o show foi no Rio. Se foi difícil assistir ao show pela TV, não havia a mínima condição de ir à Apoteose.
Quando o papai saiu do hospital pela primeira vez, eu fazia questão de colocar o CD do Elton John para ele ouvir no carro. Na verdade, sou um ótimo DJ automotivo. Sempre fiz playlists para cada situação: ida e volta para o trabalho, programas com amigos, encontros amorosos, viagens e por aí vai...
Desde a morte do papai, guardo a cópia da coletânea do Elton John como um tesouro. Infelizmente, a mídia se deteriorou com o tempo e algumas músicas não tocam mais.


Depois de 2009, o Elton John se apresentou novamente no Rio em 2011, 2014 e 2015. Não criei coragem nessas ocasiões. Mas com o anúncio dos shows no Brasil neste ano, decidi que havia chegado a hora. O Elton John já passou dos 70, daqui a pouco ele se aposenta e eu ficaria eternamente frustrado por não ter ido em nenhum show. Foi o mesmo pensamento que tive ao comprar o ingresso para o Rolling Stones, em 2015, e para o Black Sabbath, no ano passado.
Já assisti aos shows de todos os artistas que mais admiro: Soundgarden, Chris Cornell, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Oasis, Faith No More, Alice in Chains, Foo Fighters, Smashing Pumpkins, Dave Matthews Band, Ira!, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Lobão, Jay Vaquer, Pedro Mariano, Paulinho Moska e Ney Matogrosso. Já assisti a alguns desses artistas ao vivo mais de 5 vezes. Mas 3 foram especiais, verdadeiras realizações de sonhos da adolescência: Soundgarden, o primeiro do Chris Cornell e o primeiro do Pearl Jam. Porém, o que senti durante o show do Elton John, no último dia 1º, foi algo que até então era desconhecido. Ao mesmo tempo que doía de saudade do papai, como nunca antes havia acontecido, eu conseguia sentir a presença dele no show comigo. Chorei durante a primeira meia hora inteira do show. Minhas lágrimas copiosas só não chamaram tanta atenção dos fãs ao meu redor, pois o show aconteceu sob um temporal que atingiu o Rio naquela noite. Enquanto cantava com a alma canções como 'Daniel', 'Tiny Dancer', 'Rocket Man', 'Skyline Pigeon' e 'Someone Saved My Life Tonight', sentia que estava pagando uma dívida, assistindo ao show por mim e pelo papai, pois estávamos "juntos" novamente naquele momento.


O show terminou e voltei para casa em êxtase e sem voz. Na noite do dia seguinte, mostrei as fotos e vídeos do show para a minha mãe e minha irmã. Contei o que tinha sentido, e em seguida, percebi que a minha mãe estava emocionada. Ela virou para a minha irmã e perguntou: "Será que foi pra isso que ele veio?". Minha irmã respondeu afirmativamente. Fiquei sem entender o que estava acontecendo e questionei a minha mãe. Ela respondeu que, na noite anterior, enquanto eu estava no show, ela havia sonhado com o papai, o que não é comum acontecer. No sonho, ele estava com uma ótima aparência, muito bem vestido com um terno preto e uma camisa verde. Mas minha mãe ficava brava, pois ele se arrumava e saía de casa antes do almoço de domingo sem dizer o destino. Não me restam dúvidas, pagamos a dívida juntos, pois ele estava comigo no show.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Não são apenas ouvintes

Desde quando criei o perfil 'profissional' no Facebook, em março de 2015, fui adicionado por quase 4 mil pessoas. Algumas me adicionaram para pedir brindes, outras para sugerir reportagens, porém, a grande maioria foi motivada por um sentimento de carinho e admiração pelo meu trabalho.
Como em qualquer círculo social, acabamos ficando mais próximos de algumas pessoas. A Ignez Sousa Ribeiro sempre foi a amiga-ouvinte mais próxima. Trocávamos mensagens quase toda semana. No início de 2015, apresentei durante alguns meses o programa 'Sucessos da Globo' e logo depois cobri as férias do Alexandre Ferreira no 'Bailaço da Rádio Globo', e a Ignez passava as madrugadas de domingo acordada prestigiando o meu trabalho. Em maio do ano passado, saí de licença para operar o joelho e ela sempre me enviava energias positivas com desejos de rápida recuperação. Se eu tirasse um período de folga mais longo, ela me mandava uma mensagem para perguntar se estava tudo bem. Nos encontramos apenas uma vez, quando ela foi à rádio buscar um brinde e fiz questão de recebê-la. Conversamos bastante e nos despedimos com um abraço apertado. E foi assim que construímos uma amizade, verdadeira e recíproca de carinho. No último aniversário dela, no dia 09 de setembro, liguei pra ela, o que a deixou surpresa e feliz. Lembro-me de ter dito na ligação que "para amigos de verdade, mensagens na rede social não bastam".
Nossa última troca de mensagens foi no dia 11 deste mês. Uma semana depois, minha amiga Ignez foi para o Céu. Infelizmente, só soube da notícia hoje, pois horas antes dela falecer, viajei para aproveitar a folga da semana de Natal numa cidadezinha do interior do Rio, pois precisava recarregar as energias depois de um ano tão difícil. Voltei ontem, e ao acessar o Facebook agora, me deparo com a triste notícia dada pela também amiga-ouvinte Fatima Cavalcanti, que era a melhor amiga da Ignez.
Peço a que todos que lerem essa mensagem, que coloquem o nome da minha amiga Ignez Sousa Ribeiro em suas orações para que Deus possa recebê-la de braços abertos e que ela encontre a paz merecida.
Tenho certeza que a Ignez levou para o Céu o radinho da Rádio Globo e vai continuar nos ouvindo lá de cima.
Ignez, obrigado pela amizade, carinho e lealdade!


Descanse em paz!